Relação Universal do que succedeo em Portugal, & mais Provincias do Occidente, & Oriente, desdo mes de Março de 625 até todo Setembro de 626, de Manuel Severim de Faria (1627)

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Relação Universal do que succedeo em Portugal, & mais Provincias do Occidente, & Oriente, desdo mes de Março de 625 até todo Setembro de 626, de Manuel Severim de Faria (1627)

 
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Manuel Severim de Faria (Lisboa, Fevereiro de 1584 - Évora, Setembro de 1655) foi um sacerdote católico, historiador, arqueólogo, numismata, genealogista e escritor. É também considerado o primeiro jornalista português. Sua rede de contatos lhe possibilitava aceder a todo o tipo de informações, receber novas de todas as partes do mundo, para além de se corresponder, igualmente, com pessoas deslocadas e viajantes pelos quatro quantos do mundo conhecido, o que de muito lhe terá valido para os seus escritos, incluindo para a elaboração das Relações, e para a obtenção da sua valiosa biblioteca. Por exemplo, nas suas Notícias Importantes dos Anos de 1606, 1607, 1608 Em Que Se Compreendem Várias Coisas Pertencentes à História de Portugal, Severim de Faria vai dando conta, por vezes pormenorizadamente, dos principais acontecimentos ocorridos em Portugal e na Europa. É o início do seu labor “noticioso” que se veio a consubstanciar em 31 relações escritas entre 1610 e 1640 - História Portuguesa e de Outras Províncias do Ocidente, Desde o Ano de 1610 Até o de 1640 da Feliz Aclamação d’El-Rei D. João o IV Escrita em Trinta e Uma Relações - , relatos manuscritos anuais dos principais eventos, certamente dirigidas a uma pluralidade de personalidades. Dessas relações manuscritas extraiu-se o conteúdo das duas únicas objecto de publicação sob o título Relação vniversal do que se svccedeo em Portugal, & mais Prouincias do Occidente, & Oriente, desdo mes de Março de 625 atê todo Setembro de 626. Publicadas em dois anos consecutivos, constituem a primeira publicação de carácter jornalístico portuguesa, constando de pequenas notícias, por ordem cronológica ao longo do ano a que dizem respeito, e publicadas, a primeira no ano de 1626 e a segunda em 1627, tendo esta uma segunda edição em 1628.
 

Outra assinalada vitoria tiverão os nossos, dos Olandes [Holandeses], na Capitania do Espiritu Sãto [Espírito Santo], q se pode ter por milagrosa, vista a deshigualdade das armas, & gente; a que os nossos herão mui inferiores em numero.

Em dez de Março de 1625 aparecerão, à vista d’aquella costa, oito véllas de Olandeses, de q ouve tam grande sobresalto, na Villa, como se não teverão os inimigos por vezinhos avia menos d’hü anno: começarão logo, as molheres, & mininos, a despejar as casas, & a se acolherem ao mato, enchendo tudo de lastimoso pranto. Com tudo o Capitão Francisco d’Aguiar [Francisco de Aguiar] fez ajuntar a gente, a qual hera tam pouca, & mal armada, q na estancia do Governador, q hera a melhor, se acharão doze Espingardas, & os mais não tinham outras armas que Espadas, & Rodelas. Esse abominavel descuido cõ que os nossos Portugueses vivem, fora da barra, com tanta segurança como se estiverão no sertão de Portugal, os tem muitas vezes trazidos ás maiores miserias do mundo, pois peleijando sem armas, cõ inimigos armados, de força hão de ser vencidos, ou escapar por milagre do Ceo, & alli perdem as fazendas, & liberdade, não por falta de valor, mas de instrumentos de sua defenção, no qual se empregarão hua pequena parte do q empregão c outras mercadorias não vierão, por poupar pouco, a perder tudo, & o que peor he a honra, & reputação do mesmo Reyno. Quiz Deos que nessa occasião estivesse, no Espiritu Santo, Salvador Correa de Sá filho do Governador do Rio de Janeiro, com quarenta Portugueses bem armados, & setenta Indios de Frechas, que levava de socorro para a Bahia, cõ essa gente, & com a da terra, fez o Capitão tres estancias, que poôs nas bocas das ruas que sahião para a praya. Entretando entrou o inimigo, com todas as vêllas, polo Rio acima, onde podera, facilmente, ser destruido, se quatro peças q avia na Villa as poserão nos lugares q ficão sobre o Rio, & estão fortificados para este effeito, porem, como isto faltou, surgirão os Olandeses no Porto, cõ grande estrõdo d’Artelharia, & lançarão fora trezentos homens mosqueteiros, que tomãdo terra, sem cõtradição, se vierão para a Villa aberta por tod’aparte, sem mais Muros, nem Trincheiras que os peitos dos que a defendião. Cometerão primeiro os nossos valerosamente, & entre todos se travou a peleja, que durou mais de hum quarto d’hora, atê que vendo o Padre Guardião de Sam Francisco, Frey Manoel do Espiritu Santo [Frei Manoel do Espírito Santo], q andava na estancia de nossa Senhora da Vitoria, animando os nossos, como os inimigos cometidos por hum lado mostrarão fraqueza, gritou vitoria, vitoria, a cuja voz rendidos elles deixarão logo as Armas, & começarão a fugir: vendo isto, os das outras instancias apertarão os cõtrarios, de maneira, que em breve espaço, huns, & outros, virarão todos as costas, fugindo para as Lanchas: seguirão os nossos o alcance, porem, sendo tam pouca a gente, fez o Capitão sinal a recolher, por não acontecer algum desastre, contentandose cõ ver o campo coberto de inimigos nossos, & dos despojos de suas armas, sem faltar, da nossa parte mais de hum soldado. Tornarão os Olandeses, ao outro dia, a tentar de novo a fortuna, mas não lhes sahiu melhor sorte, por q tomando terra em maior numero, vendo morto hum cõpanheiro, de hua seta q lhe tirarão da Villa, se tornarão a embarcar, sem quererem, segunda vez, experimentar o valor dos nossos. A a fama desses bõs succesos acudia muita gente do mato á Villa, querendose, até os cobardes, gloriarse da vitoria; o q sentindo os inimigos determinarão hir polo Rio acima a asaltar o mato, q não tinha mais que molheres, para isto partirão c quatro embarcações guiadas por hum estrangeiro, q fôra morador na dita Villa. Esta inesperada resolução causou tam grande sobresalto nos nossos (por q todos tinhão suas familias, & fazendas fora, a q se acodissem desempararão hua, & outra parte) polo q ordenou o Capitão môr a João d’Azevedo, q cõ alguma gente fosse a vista do inimigo, com tudo, elles, que hião diante, tomarão varias Canoas, & hum Caravelão de Salvador de Sá, que estava quasi despejado, & passando a noite, cõtentes cõ esta preza, os nossos se ajuntarão intertanto com Salvador de Sá, & sahindo ao outro dia de huma emboscada, cõ tres Canoas, derão nos inimigos cõ tanta furia, q lhe abalroarão a Lancha principal, sem deixar nella mais de dous com vida; as outras se recolherão com tanto dano, que em huma sós quatro escaparam da morte, & assi ficarão os nossos senhores do campo, custanto a vida dous homens, & alguns feridos. Desesperados os Olandeses de melhor successo, derão á vêlla a dezoito de Março, deixando mortos mais de cem homens, em q entrou o seu Almirante, & o trahidor Rodrigo Pedro, q hera casado no lugar, & ainda q os dias que estiverão no Porto meterão mais de oitocentos, & cincoeta Pelouros na Villa, não fizerão dano de cõsideração.

 

Texto Completo

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FARIA, Manuel Severim de. Relação universal do que se succedeo em Portugal, & mais Prouincias do Occidente, & Oriente, desdo mes de Março de 625 atê todo Setembro de 626. Braga : impresso por Fructuoso Lourenço de Basto, 1627. Disponível em: http://purl.pt/25667.
 
 
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