Historia ou Annaes dos feitos da Companhia Privilegiada das Indias Occidentaes desde o seu começo até ao fim do anno de 1636, de Johannes de Laet (1644)

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Historia ou Annaes dos feitos da Companhia Privilegiada das Indias Occidentaes desde o seu começo até ao fim do anno de 1636, de Johannes de Laet (1644)

 
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Johannes, ou João de Laet, nasceu nos Países Baixos, filho de um rico comerciante. Foi geógrafo e diretor da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais a partir de 1621. Em sua época, manteve contanto com grandes pensadores, como José Scaliger e Hugo Grócio. Suas principais obras estão ligadas ao seu trabalho na Companhia, que é o caso desta História, onde ele narra as invasões holandesas no Brasil colonial. A tentativa de invasão no Espírito Santo é narrada no livro segundo, ano de 1625.
 

Fragmento do Livro Segundo, narrando o ano de 1625:

O almirante Pieter Pietersz . Heyn [Pieter Hein], que deixamos o anno- passado no rio de Congo, partio com todos os navios aos 2 dias do mez de Janeiro deste anno, e depois de andar divagando por algum tempo por respeito das correntes e ventos, quando veio ao dia 7 do mesmo mez, amanheceu obra de quatro léguas ao norte do porto de Loango, que esta situado em altura de 4º37’. Sao fáceis as conhecenças deste lugar: há ao sul delle moutas, que de longe semelham pequenos castellos, e quatro leguas ao norte veem-se duas colinas, que chamam Mamas ou Tetas de Mulher. Ao outro dia juntaram-se com elle as chalupas, que anteriormente haviam sido mandadas sahir do rio em procura de refrescos; poucos trouxeram para tanta gente, pelo que ordenou o almirante que os navios andassem espalhados por essas costas até ao dia 18 do corrente mez, com fundamento que topariam navios portuguezes. O Meermin seguira adiante, e surgira em altura de 1º40’, na qual altura a pouco e pouco se juntariam todos os navios para de conserva irem tomar a ilha de Anno Bom, onde se procurariam refrescos. Mas, reconsiderando a sua ordem, o almirante comunicou aos navios por cartas datadas do dia 14 que não convinha avançassem para o norte além dos 2 gr., para o efeito de irem buscar com mais segurança a ilha de Anno Bom. Com quase todos os navios tomou o almirante esta ilha aos 19 dias, e o navio Hollandia a 29, , e nella encontraram muitos refrescos. Esta ilha, segundo observou Willem Jansz., demora em altura de 1º30’; tem muitos porcos, laranjas, limões, e muito boa agua. O governador tratou os nossos com amizade, ainda que com medo, depois que soube que aquelles navios haviam tomado parte na rendição da Bahia. Tendo bem refrescada a sua gente, se determinou o almoirange a fazer a travessia da costa do Brazil, assim para andar ás pressas pelas capitanias do Rio de Janeiro e Espírito Santo, donde lhe constava partirem na primavera alguns navios, com carga de assucar e outros fruetos da terra, como também e principalmente para voltar à Bahia a ver se lá tinham necessidade dos seus serviços. Partio da ilha de Anno Bom a 2 de Fevereiro. Pelas muitas calmarias e ventos variáveis, que o molestaram, andou muito tempo retido pelos 2 gr. De latitude meridional. A 17 foi servido pela primeira vez de um vento fresco do sudeste; era em algura de 0º8’, e no último do mez de 15 ½ gr. A 3 de Março, sendo chegado quase em altura de 19º, assentou de seguir para o Espirito Santo, onde faria um salto. A 9 houve vista da costa do Brazil, da qual estava apartado obra de quatro léguas; tomou sonda em dezoito braças; ao sudoeste terra mui grossa, ao noroeste baixa e assentada; ao meio-dia altura de 19º48’ de lat. Mer. Ao outro dia avistou a Serra do mestre Alvaro, mas, vendo que não podia entrar no rio com dia, fez-se algum tanto ao largo, por não ser visto dos de terra. Ao romper do dia 11 estava apartado légua e meia do rio, e, como os navios estavam algum tanto espalhados, esperou-os até ao meio-dia, quando levantou-se o vento sudoeste; foi navegando de longo da costa até que abrio-se o rio, e endireitou então para elle. Não encontrou o almirante fundo menor de dezenove pés entre as ilhotas, que é onde há mais agua, e ainda se pode aproveitar da maré de aguas vivas, que aqui as ocasiona a lua ao rumo do sudoeste. Sobre a noite foi empecido pela maré vazante, e teve de surgir em seis braças. Ao outro dia juntou o conselho, e nelle assentou-se a ordem, que teriam na facção contra a cidadezinha do Espirito Santo. O mais das forças consistia em marinheiros, pouco feitos a jornadas, e não costumados a guardar ordenança militar; tendo conta com este inconveniente, resolveu-se que os marinheiros fossem divididos em três companhias, e como desembarcassem, assim se ordenassem as fileiras, que caminhassem dous marinheiros ladeados de dous soltados. Ao meio-dia melhorou o almirante para dentro do rio com vento do mar, navegou tanto avanta como a praça, e surgiu um tiro de fronda da praia, ficando os navios dispostos um atraz do outro, de maneira que podessem jogar contra a praça toda a artilheria de uma banda. Mettida a gente nos bateis, largaram estes para a náo almirante, donde seguiram todos os nossos juntos para terra, e aqui se puzeram em ordem de batalha. Mas, como havia pouco espaço para arrumar toda a gente, o almirante avançou um pouco com oito ou dez fileiras. Os habitantes desta praça, informados da chegada dos nossos, se haviam apercebido para resistir, e assestaram um morteiro de bronze contra o caminho, que os nossos tinham de enfiar, e deram-lhe fogo, tanto que nos poderam alcançar. Vendo isso, salta o almirante para o lado, amparando-se atraz de uma casa, e apenas soa o tiro, apresenta-se de novamente, animando a sua gente a dar bravamente sobre o inimigo; mas, pois os officiaes e particularmente os capitães ainda não estavam na frente, nem as fileiras se achavam dispostas, segundo a ordem determinada, estando quase todos os marinheiros adiante, já estes não atendiam ás vozes, e entraram a cuidar de si, receiosos da artilheria. O almirante trabalhou com eles que avançassem, mas embalde, que o medo lhes ia lavrando pelos peitos. Voltaram costas em grande confusão, e recolheram-se aos navios com perda de oito homens, e outros tantos feridos. Na fugida alguns lançaram de si as armas. Não obstante o malogro do accommettimento, ao outro dia o almirante mandou os dous hyates, duas chalupas e dous bateis subirem o rio, a ver si topavam nelle navios ou barcos, e ao mesmo tempo entrou a atirar sem parar com suas peças grossas contra a cidadezinha, cujos moradores lhe responderam bravamente com tiros de moesquetes. A 15 voltaram os hyates com perda de um batel, em que havia vinte e cinco homens e quatro pedreiros. O caso foi este: tendo subido o rio obra de duas léguas e meia, acharam um barco que esbulharam e queimaram; as chalupas e os bateis continuaram a navegar para diante, mas, acalmando o tempo, não poderam aquellas prosseguir; seguiram pois somente os bateis, e ao montar de uma ponta foi um deles assaltado por três canoas, cuja gente o tomou e matou os nossos marinheiros, pelo que retrocedeu o outro batel. O almirante conjecturando que alguns dos seus estivessem presos, mandou recado ao governador que os soltasse, mas este respondeu-lhe que os indígenas haviam morto toda a nossa gente, e espedaçado o batel. A 18 os navios deseeram para um monte que, pela sua forma, chamam Pão de Assucar, e às pressas os limpram um pouco. A 21 as chalupas e pequenos bateis foram mandados procurar as maiores profundidades do rio, e balizal-as; acharam que o maior fundo, que tem o canal, é treze pés. Sahiram os navios, navegando perto da margem meridional e em distancia de obra de um tiro de fronda do parcel, que está pegado com a dita margem septentrional. Este rio corre geralmente leste oeste, encolhendo-se e bojando até ao Pão de Assicar; aqui alarga-se arrumando-se ao lesnordeste, para o lado da cidadezinha, que demora apartada da barra obra de légua e meia. Na margem septentrional, cousa de uma légua da barra, há um castelinho de pouca força.

A 31 era em altura de 20º, e a 5 de abril na de 19º. A 6 avistou uma vela estrangeira, que foi perseguida e tomada por volta de meio dia; vinha do Rio de Janeiro com carga de cento e trinta e cinco caixas de assucar. Sabendo pelos prisioneiros que no Rio de Janeiro havia mais dous navios, que estavam de verga d’alto, um com quatrocentas caixas, e o outro com quatrocentas e cincoenta, o almirante determinou estanciar por aqui mais algum tempo. A 8 houve vista de um daqueles navios, a que os nossos deram caça até sobre a noite, que foi quando elle conseguio se escapar. Juntaram-se outra vez os navios, menos o do almirante e sua chalupa, mas, quando veio ao outro dia, reapareceu a almirantada. Estando todos juntos, menos a chalupa do almirante, a 12 foram em altura de 17º38’, e em distancia da costa, segundo calcularam, cinve e seus léguas; e nada obstante deram em fundo pedregoso; mas na manhã de 14 o leito do mar aprofundou-se rapidamente; altura tomada ao meio dia 17º45’. Ao seguinte dia houve vista outra vez da costa do Brazil em altura de 15 gr. E um terço. Ao outro dia estava em frente de Camamú, e porfiou por entrar na Bahia, mas não lhe terçou bem o vento.

 

Texto Completo

 
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LAET, Johannes de. Historia ou Annaes dos feitos da Companhia Privilegiada das Indias Occidentaes desde o seu começo até ao fim do anno de 1636. in: Annaes da Bibliotheca Nacional do Rio de Janeiro.. (Vol. XXX). Rio de janeiro: Officinas Graphicas da Bibliotheca Nacional. 1912, pp. 81-84.
http://objdigital.bn.br/acervo_digital/anais/anais_030_1908.pdf
 
 
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