30/04/1558: Carta que o irmão Antonio Blasquez escreveu da Bahia do Salvador, das partes do Brasil, a nosso Padre Geral

08/02/1609: Carta para El-rei, dando conta da chegada à Baía, do estado da terra, do apresto do galeão de D. Constantino de Menezes, para o que havia mandado de Pernambuco o sargento-mór Diogo de Campos Moreno, das providências tomadas para forçar o galeão a fazer-se à vela ; sobre as despesas feitas com o mesmo galeão, para as quais lançou mão do dinheiro da imposição na quantia de oito mil cruzados ; sobre Alexandre de Moura, que ficou em Pernambuco com o cuidado das cousas da Capitania ; sobre Sebastião de Carvalho, que dali veio em sua companhia e continuava com a devassa do pau-brasil ; sobre a naveta inglesa que entrou no Espírito Santo ; sobre remeter preso Sebastião Martins, pela devassa que se tirou dele e seu irmão, mestre e piloto da caravela, do que aconteceu às orfãs que trouxeram
30/07/2016
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30/04/1558: Carta que o irmão Antonio Blasquez escreveu da Bahia do Salvador, das partes do Brasil, a nosso Padre Geral

 
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Esperando toda a terra navios de Portugal, por haver muito tempo que não vinham, chegou uma caravela que vinha sem nem-unia provisão para terra e vinha para ir daqui a S. Thomé [São Tomé] ; esta deu novas como Men de Sá [Mem de Sá] havia tres dias que tinha partido da ilha do Cabo Verde em uma nau, em companhia de uma caravela, quando esta mesmo partia e que de razão não havia de tardar muito. Estando assim todos com grande alvoroço esperando, vespera de Nossa Senhora de Agosto chegou uma nau mui formosa da índia, que era a capitanea, em que ia D. Luiz, filho do Arcebispo de Lisboa, por Capitão Mór, e veiu com elle a caravela que vinha com Men de Sá, e disse que se havia separado delle por acaso antes da Linha; esta nau, posto que foi em parte proveitosa para a terra, por trazer vinho e farinha pára as missas porque já não a podiamos descobrir, pannos para a gente se vestir, comtudo poz a terra em aperto de mantimentos, porque não os havia nem para os da terra, porque os índios não os fizeram nem os tinham e havia fome geral entre elles ; a causa disso foi porque nunca estiveram seguros, mas medrosos que os expellissem da terra, como agora os expellem. Os Christãos tão pouco tinham, sinão alguns poucos, porque os desta terra mais se dão a folgar e jogar e passear, fizeram nesta terra antes de tempo côrte de Príncipes, havendo nella ainda agora mister quem habite e trabalhe com fouces e enxadas.

Dahi a alguns dias e quando estavamos mui receíosos coma tardança de Men de Sá, chegou outra caravela, que vinha carregada de escravos de Guiné, da ilha do Príncipe. Esta disse como a nau de Men de Sá fôra aportar áquella ilha com grande aperto e falta d’agua, e’ que dali era já;partida *no mesmo dia em que esta partiu ; mas comtudo não podia chegar, que cansavam os espíritos de esperar, até que Nosso Senhor por sua misericórdia a trouxe, a oitava dos Innocentes, havendo oito mezes que partira de Lisboa, com trazer muita gente menos, porque morreram de fome e calores da costa de Guiné mais de 40 pessoas.

Depois de haver chegado, começou logo a pôr a terra em ordem, assim aos Christãos como aos Gentios, porque aos Christãos atalhou as demandas com que toda a terra andava revóha, tirou o jogo da cidade, que tão publico andava e com muita offensa do Senhor ; fazia aos vagabundos e ociosos trabalhar, assim por palavra, como pelo exemplo, porque é mui fragueiro ; tirou que andasse entre os índios a gente que entre eíles soia ser escandalosa.

Isto era do que a terra tinha mais necessidade. Aos Gentios tambem começou a ordenar, porque fez Jogo ajuntar quatro aldeias em uma grande, para que com isto* pudessem mnjs facilmente ser ensinados daquelles que estavam aqui mais perto da cidade, e, a todos os que póde, obriga que não comam carne humana, e fal-os ajuntar em grandes povoações; começou já a castigar a alguns e começa a pól-os em jugo, de modo que se leva outra maneira de proceder que até agora não se teve, que é por temor e sujeição ; e pelas mostras que isto dá no principio, conhecemos odructo que adiante se seguirá, porque com isto tòdos temem e todos obedecem e se fazem aptos para recebera Fé. Mas sempre o inimigo de todo o bem busca estorvos, grandes, e um delles foi a morte do filho do Governador, o qual, sendo mandado por seu pae a soccorrer a capitania do Espirito Santo com certos homens, foram dar onde não os mandavam e, comtudo, renderam duas cercas, onde mataram muitos Gentios e prenderam boa parte delles; com este bom successo, querendo o Capitão seguir a victoria, deu na terceira cerca, onde se acabava tudo de vender; nesta o deixaram todos os seus, só com dez homens a pelejar ese acolheram aos navios, uns para curarem algumas feridas de pouco momento, outros para arrecadarem suas peças, o quéelíes mais desejavam. Estesdez, com o seu Capitão, pelejaram tão bem que tinham já a cerca rendida, si os acudissem com duas panellas de polvora, que nunca lhes quizeram levar, até que os índios attentaram que eram tão poucos, com o que cobraram animo e carregaram sobre elles e fizeram-n1os vir recolhendo até aos navios e quiz a desventura que lhes haviam tirado os navios e barcos de onde os haviam deixado, que foi desconcerto nunca ouvido, e ali, na praia, pelejaram um grande espaço, esperando soccorro dos: navios, e ao cabo nunca lhes veiu, e ali mataram o Capitão, filho do Governador, com cinco, porque os outros salvaram-se a nado.

Esta nova, ultra de estristecer os corações de todos os da terra, deu esforço e animo á Gentilidade por se matar pessoa tão assignalada. Outro estorvo maior que este temos, e é que, como a gente desta terra não busca, nem pretende a gloria de Deus, nen o bem universal, sinão o seu proprio, todos são em estorvar esta obra e esfriar a vontade e fervor que o Governador mostra ; illic trepidaverunt semper ubi nort erat, neque est ti mor, porque estando os índios sujeitando-se e obedecendo e tremendo de medo, os Christãos, com outro maior medo, lhes estão dando animo.

 
 
BIBLIOTECA NACIONAL. Annaes da Bibliotheca Nacional do Rio de Janeiro (Vol. XXVII). Rio de Janeiro: Officina Typographica da Biblioteca Nacional, 1906.
Acervo Biblioteca Nacional
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