20/05/1555: Carta de D. Duarte da Costa, 2º governador do Brasil

01/06/1553: Carta de Tome de Sousa
20/10/2017
22/05/1550: Carta de Vasco Fernandes Coutinho
20/10/2017
 
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Senhor.—Por Cristovam dOliveira capitam da nau Esperança recebi hüa carta de Vosa Alteza na qual me escreve o descontentamento que tem de meu filho Dom Álvaro por fazer nesta terra cousas contra o serviço de Deus e de Vosa Alteza e contra a obrigaçam que me tem por ser seu pae e governar agora esta terra e que por meu respeito o deixava agora de castigar.

Vossa Alteza teve muita razão de dar credito aos papeis do bispo e ao que lhe de meu filho escreveu porque parece que hum bispo de 60 annos nam quereria infamar hum mancebo, meu filho, e fazer lhe perder o que merece diante de Vosa Alteza sem causa, mas tenho por mui certo que se Vosa Alteza ouvira as partes e examinara as testemunhas do bispo e fora bem informado de como elle sempre viveu no Porto e na índia e em outras partes onde esteve mandaria primeiro saber como isto passava antes de lhe dar nenhum credito, mas ja que lho Vosa Alteza deu e lhe pareceu que meu filho podia ter taes erros recebi eu muito grande mercê de Vosa Alteza em me escrever que por meu respeito o deixava de castigar.

£ ainda que as culpas quando os filhos tem toquem nalma aos pães a mim tocou neste negocio nalma e na vida e fico morto de paixam e de desgosto, porque sei quam ao contrairo meu filho aqui serviu, e viveu do que escreveram a Vosa Alteza.

Este novo negocio e outras cousas pasadas do bispo me farão agora dizer e entender em cousas que nunca disse nem custumei em 51 anos que tenho vividos nas abas de Vosa Alteza. O bispo, Senhor, he Inimigo de meu filho como Vosa Alteza verá nos papeis que lhe tenho mandados e pelas difamações que nelles e noutros que meu filho lhe mostrará se declara, quis Nosso Senhor que viesse elle a esta terra pelos pecados dos moradores delia, mande Vosa Alteza saber os muitos homens principaes e areados vossos que tem desonrrado sendo lhe elles muito obedientes por sua dinidade mande se Vosa Alteza informar de como ferio dous omens por suas mãos e huu deles esteve de todo a morte cora os miolos descobertos o qual curou o licenciado Jorge Fernandes vosso físico e do que mandou fazer na visitaçam da costa e do dinheiro que de Ia tirou e do que fez por si em Pernambuco donde me escreveram que trouvera mais de 800 cruzados afora muitos serviços que tomou e mande se Vosa Alteza bem informar de como he cortes nos púlpitos e estações ao vosso governador e aos vossos oficiaes porque estes sam os logares que o bispo toma pera sua vingança e nestes se nam fez nesta terra ategora nenhum serviço a Nosso Senhor, mas nascem do que nelles diz grandes escândalos e prejuízos. Dos padres de Jhesu pode Vossa Alteza saber como sam delle tratados e como os ajuda com suas esmolas e com os favorecer de fora.

Outras cousas multo vergonhosas e muito baixas pera prelado pudera dizer delle a Vossa Alteza que por onestidade nam digo e estas que digo com muito descontentamento meu o faço e nam poderei deixar de dizer a Vossa Alteza algüas mais o mais onestamente que puder pera que conheça quam mal faz o que repreende, quando cheguei a esta cidade fiz a honra que devia a Joam Rodriguez Peçanha e meu filho hera seu amjguo, isto estranhava o bispo em púlpito e em ajuntamentos e tanto que se Joam Rodriguez descontentou de mim por suas culpas, logo o bispo o adquiriu a si e teve com elle estreita amizade e lhe comeu o que lhe dava e se aconselhava com elle ate á ora que o viu preso outras taes amizades tratou com Antônio Cardoso e com Luis Garcez como vlo que os eu castiguei, e assim o fazia com todo homem infame em que via disposição pera me danar e nos ajuntamentos que tinha com estes homens e de como se gloriava de ter bando me pareceu propio da condição do bispo de Câmara.

Vasco Fernandez Coutinho [Vasco Fernandes Coutinho] chegou aqui velho pobre e cansado, bem injuriado do bispo, porque em Pernambuco lhe tolheo cadeira despaldar na igreja e apregoou por escomungado de mistura com homens baixos por beber fumo segundo mo ele dise, eu o agasalhei em minha casa e com minha fazenda lhe socorri a sua pobreza pera se poder ir pera o Espirito Santo e o bispo o agasalhou com dizer no púlpito cousas delle tam descorteses estando elle presente que o puseram em condlçam de se perder do que eu o desviei e hei vergonha de decrarar o que lhe disse e por lhe defender a elle o fumo sem o qual ram tem vida segundo elle diz o defendeu nesta cidade com excomunhões e grandes penas dizendo que era rito gentillco sendo húa mezinha que nesta terra sarava os homens e as alimarias de muitas doenças e que parece que nom devia de defender e por se achar que hum pobre homem o bebia o mandou pôr nu da cinta pera cima na Sèe hum domingo á missa com os fumos no pescoço e condenou a outro na mesma pena o qual de vergonha de a cumprir fugio pera os gemtios tutiapara e o mataram Ia e o bispo foi causa desta morte e da guerra que pode suceder do troco que hei de tomar como tiver tempo e certa informaçam da maneira de sua morte.

Nos tempos das confissões vão cousas que escandalisam muito e de que se Vossa Alteza deve mandar Informar porque se o bispo presume que algum ornem testemunhou algua cousa no secular contra elle, na confissão lhe perguntam os seus clérigos por isso e ainda que digam que testemunham verdade ou que não foram nisso nam os querem absolver nem dar a comunham, até que lhes digam o que querem e da maneira que querem e disto se queixaram aqui publicamente dous ou três omens por toda esta cidade.

A Cristovam Cabral capitam do bergantim São Tome escomungou e condenou em cinqüenta cruzados por levar daqui o deão que Ia é por meu mandado a embarcar aos Ilheos e eu pus por ele parte ate vir sentenciado do reino e nam contente com isto quando veio o tempo da confissam nam no quiseram absolver por o bispo assim mandar dizendo lhe o padre que havia de pagar primeiro as dividas que o deão devesse nam lhe valeo dizer que o levara por mandado de seu governador que o citasem primeiro e que fosse ouvido e sentenciado e que entam se fosse a isso obrigado pagaria, nam prestou nada e andou assim ate se embarcar comigo pera Pernambuco e como o viram embarcado o escomungaram como o elle soubesse se foi ao bispo pedir lhe que o mandasse absolver e que nam no vexase sem causa e o bispo lhe respondeo que era erege segundo me elle disse e outras palavras peores pelo qual me pedio licença pera se ir pera o reino queixar se a Vosa Alteza e eu lhe impedi a ida porque o avia mister e por tolher queixumes.

É certo, Senhor, que como hum ornem nam faz o que o bispo quer, logo é ameaçado dizendo que sentem mal da fé, anda, Senhor, a cousa de maneira no eclesiástico que hum domingo destes pasados perante Cristovam d Oliveira capitam da nau Esperança apreguou na estacam o deão que é alma e o conselheiro do bispo ornem bem auto pera se deitar desta terra pelos males que aconselha ao bispo por outros muitos defeitos de sua pessoa por escomungado ao Doutor Pero Borges, vosso ouvidor geral e provedor mor por nam estar á pregaçam do bispo e isto de mistura com os mais infames omens desta terra que entam escomungava e manda ler escritos na estacam que me Luis Garces pede que eu lhe nam faço por nam ser justiça nem vosso serviço e disto e doutras cousas que aqui passaram em tempo que aqui esteve Antônio d Oliveira se pode Vosa Alteza informar delle tudo a som de difamar e de dar ao povo em que falar.

Eu senhor quamdo recebi esta carta de Vossa Alteza tinha ja arribado do caminho que fazia pera Pernambuco donde havia de mandar meu filho pera o reino no galeão e caravelas como Vosa Alteza verá pelas cartas que tinha escritas agora Senhor o mando de melhor vontade, porque ja que Vosa Alteza lhe perdoa por meu respeito o que seus inimigos delle escreverem e testemunharem nam quero eu que dissessem e escrevessem outras cousas peores por onde parecesse a Vossa Alteza que ambos merecíamos castigados e pera requerer a Vossa Alteza a minha ida que tanto cumpre pera minha comciencia e saúde e pera lhe Vossa Alteza fazer a mercê que merece pelos serviços da feira e desta terra.

Peço por mercê a Vossa Alteza que mande tirar hua devassa delle por pessoa sem suspeita e preguntar se os padres de Jesu aos quaes se nam esconde nada e a todo o povo desta terra tirando pesoas que aqui castiguei que sam três ou quatro e se achar delle cousa mortal mande o castigar como merecer e a mim também, porque se ele andara com mulheres casadas ou matara ou espancara ou ferira em terra tam pequena eu o houvera de saber e certo que quando eu nam pudera com elle nem aproveitar meu castigo não estivera hüa so ora comigo nesta terra.

Mas eu espero em Nosso Senhor que se me Vosa Alteza fezer esta mercê que achara que nunca olhou pera mulher casada nem abosou ninguém e que todo o povo lhe quer muito grande bem e chora porque se elle vai e que alem das idas em que gastou muito servia em todos os ofícios que lhe eu mandava asim no mar como na terra, e me descansava em tudo e a pobreza que lhe eu dava a gastava com pobres e presos e agora quando se embarcou deu a cama e vestidos por amor de Deus a moradores pobres e lhe fará a mercê que elle merecer.

E peço por mercê a Vosa Alteza que nam dee credito a nenhúus papeis feitos em casa do bispo por seus ofidaes porque pode ser que encarregue sua conciencia nem se confie dos testemunhos dos homens que Ia foram porque nam dirão toda a verdade como são hús mancebos irmãos que se chamam de alcunha as Freiras que Vossa Alteza tomou por moços fidalgos e que o viessem servir comigo no Brasil, estes se vieram embarcar dando eu a vela em Belém sem cama e mal vestidos os quaes remediei de tudo e lhes dei de comer sempre á minha mesa e dinheiro pera suas necessidades eram tam mal acostumados em muitas cousas e em difamar molheres que os mandei pera o reino e como o bispo o soube os começou a grangear e elles se gabaram que escrevia o bispo por elles a Vosa Alteza males de mim e de meu filho e por hum clérigo seu parente os quaes não serão boas testemunhas por isto e por suas vidas.

Também soube agora que o bispo e cabido não escreveram a Vosa Alteza bem de mim pelo mestre escola que Ia vai por seu mandado, a elle mesmo mande Vosa Alteza preguntar por juramento se he verdade o que escreveu a Vosa Alteza e se dá conta o bispo do que escreve as pesoas que assinaram a carta e de mim se informe dos seus clérigos e de quem quiser, ainda que pera mim nam havia mister responder mais que o que ouvi que respondera hum romão honrado a hum imperador sendo acusado por hum homem de mao viver e dizia «Senhor aquele me acusa e eu nego, Vosa Alteza julgue.

O bispo, Senhor, vive como sempre viveu e por ventura peor com o poder que tem, tam longe de Vosa Alteza, eu, Senhor, vivo como sempre vivi acompanhado de muitos trabalhos e mais sofrimentos do que nunca tive dos gastos que tenho e de como faço justiça e da paz que procuro e do exemplo que dou de fora ainda que de dentro seia mao e de como olho por vossa fazenda e de como trabalho de descobrir nesta terra cousas de vossa serviço, Vosa Alteza se pode informar e pera minha consciência eu estou sem escrúpulo do que faço e muito desejoso de ter saúde e habilidade pera vos servir milhor ha dous anos que sirvo e quis nosso Senhor que alem dos trabalhos que eu afigurava que ca havia de ter, tivesse estoutros que atrás digo em que nunca Ia cuidei em pendença de lhe nam agradecer bem as muitas mercês que sempre recebi delle. Tenho dez filhos e filhas molheres em idade pera casar e minha molher muito mal disposta e eu o fico em estremo de disposições de que fui mister bem curado, como lhe meu filho dirá, não vim a esta terra por cobiça nem por vaidade de honra nem em idade pera folgar de ver mundos novos, so o amor de vosso serviço me trouxe sem conselho de parente nem de ninguém, peço por mercê a Vosa Alteza que a mercê que eu por isto mereço seja mandar me ir no tempo que me Vosa Alteza limitou porque se nam tivera delle ja tão pouco por correr ainda lhe pedira que mo encurtara por nam estar na conversação do bispo porque com todo homem me concertara, ainda que fosse diabo, senão como elle e este pouco tempo que me fica daqui ate maio pera comprir os três anos eu trabalharei que o não gaste todo nesta Baia por me escusar de tão terrível conversação. Noso Senhor a vida e real estado de Vosa Alteza acrescente. Desta cidade do Salvador a vinte dias do mes de maio de 1555,

—Dom Duarte da Costa.

 
 
DIAS, C. M., VASCONCELLOS, E. J. D. C., & GAMEIRO, A. R. História da Colonização Portuguesa do Brasil - Edição Monumental Comemorativa do Primeiro Centenário da Independência do Brasil. Vol. III. Porto: Litografia Nacional, 1922, p.375-377.
Acervo Biblioteca Nacional
Com linguagem atualizada, assim como disponibilizado em: https://educacao.uol.com.br/disciplinas/historia-brasil/brasil-colonia-documentos-2-regimento-de-tome-de-sousa-1548.htm
 
 
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