18/08/1545: Carta de Pedro de Góis escrita da Vila da Rainha ao seu sócio Marfim Ferreira

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19/10/2017
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18/08/1545: Carta de Pedro de Góis escrita da Vila da Rainha ao seu sócio Marfim Ferreira

 
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(Em que dá notícia minuciosa das plantações de canaviais, montagem de engenhos, pessoal para os mesmos, etc.)

Senhor—Ja que per outras cartas minhas lhe dou conta do que qua pasa e do que de llaa vem sô mais breve que poso. Por Jorge Martinz que laa vai se achar a tudo e de tudo hir de mi avisado e pera o laa avisar do que qua paso e quero agora dizer de mim como fiquo e o que detrimino e asi ho que mais compre pera esta negoceação a que Deus deixe acabarmos com honra e muito proveito como espero nelle que seja cedo.

Despois de me vir e largar no Rio da Paraíba nosa fazenda que fazíamos detriminei ver as augoas que nesta terra onde fiquo avia, e Luis de Góes ao presente estava, as quaes em as ver amdei perto de dous meses por a terra ser chea de arvoredo e os Índios pouquo práticos no que nos queremos nellas e em algúas que tenho pera mi que som milhores e mais perto por ser o lugar per onde se avia de busquar trabalhoso e as próprias auguas susas com paos que ao presente he trabalhosa cousa alimparem-se. Fui-me a fonte limpa e onde está a cousa certa ainda que pera o presente seja hum pouco longe que pode aver per terra sete ou oito legoas e por augoa dez. Isto na própria verdade que outra cousa nam é rezão que lha escreva nem se sofre antre taes pesoas e tanto.

Digo que isto e neste próprio rio de Managee donde estou o qual vem nelle dar outros rios que sam os que lhe digo que ao presente inda que se faz mais perto não pude ver e serão ao diante muito bõos ora por este rio arriba onde começa de cair de quedas e até onde boamente podem os barcos bir fui a ver e achey poderem se fazer todos quantos engenhos quisermos por ser hum rio onde entrão e podem entrar navios como ese que veo vindo em tempo daugoas e corem dalto por donde se pode fazer tudo o que quiserem neste rio e nestas cachoeiras medi .ho que queria fazer e pera ter mais sem duvida fui ao Spirito Santo omde me achou e o caravelão quando veo. E com muito trabalho ouve hum oficial de Brás Telles ao qual dei a cruzado em dinheiro por dia em que se montou no que lhe dei em quanto qua amdou dezoito mil reaes como lia veraa per hum coaderno que Ia vai do que se quaa gastou. Este por ser ja esperimentado e por nosos oficiaes qua me faltarem em húa augoa quis comprender pouquo e segurar mui o e ter diso muita certeza como tenho asi que tomei o que me bem pareçeo per fazenda asi do olho do mais. Fiqua o primeiro emgenho daugoa com oítocentas braças de levada de três palmos sós em largo e três em fundo por terra muito chãa e sem trabalho e trazem na á borda do Rio sobre hum outeiro como digamos ese que vosa merçe tem de trás de sv. E damos a queda que he de sesenta palmos largos pera riba em baixo na borda do rio que estaa tam perto como ese mar de caa de maneira que fiqua o emgenho tam perto do rio como esas casas donde vosa mercê estaa e podem chegar as barquas asy como ahí chegão. Ficaram os mestres muito satisfeitos da terra. E de feito é muito estremada terra de marapenes quedentas (?) lhe chamão elles e da maneira que elles desejavão. Ora nam tem mais esta terra senão ser dez legoas por augoa pello rio que nom lhe faz nada noso [nojo?] e obra de sete legoas por terra omde lhe mandei abrir hum caminho que pode hum carro sem molhar pee chegar ao engenho e cavalos e tudo e tudo ho que homem quiser. E amda se em hum dia por terra quem quer e quem nam quer ir polo rio, vai por terra, asi pello rio se pode acarretar ho açuquar sem trabalho e por terra sirvirem se por mais presteza. Isto da própria maneira que lhe escrevo, pasa; e escrevo lhe pera que o saiba.

Neste rio como digo detrimino fazer os nossos emgenhos daugoa pera ho qual este. primeiro dia dagosto (sic) que embora viraa parte hum mancebo lingoa com hum homem que vinha por feitor pera Luis de Góes, a que qua damos dez mil reaes por este primeiro anno e á língua quatorze. Estes dous homens com outros dous que pera isso asoldadei, vão arrotear e a fazer com os Imdios muita fazemda . s. prantar hüa ilha que já tenho pelos índios roçada de canas. E asi fazer toda quanta fazenda pudermos fazer, pera que quando vier gente ache jaa que comer e canas e o mais necesario pera os emgenhos. E entretanto que estes homens rossam, faço eu qua no mar dous engenhos de cavallos que moia hum delles pera os moradores, e houtro pera nós somente; e isto pera o presente os entreter. Pera estes dous engenhos, bento Deus, tenho gente e o mais que lhe pertence que he canas pranto agora. E querendo noso Senhor, da feitura desta a anno e meio poderei Deus querendo mandar hum par de mil arrobas daçuquar noso destes emgenhos, e dahi pera diante mais. Nisto eu porei toda a diligencia que poder e Deus poraa aver tudo. Isto detrimino ao presente e nestes empenhos ficamos todos ocupados ao presente como Jorge Martinz lhe laa dirá; e podem ser feitos querendo Deus antes de hü ano e logo dahi a seis meses moer e termos ja qua sabido que estes dous engenhos de cavalos moem tanto como hum daugoa bõo. E tenhos em casa e em cabo seguro e donde o açúcar nom pode ser maao se não ho milhor da costa pelo porto ser muito bom e exprimentado por nós jaa.

Pera estes engenhos como já dito tenho temos escravos e gente que abaste pera elles resalvado moedor que á mister que mande buscar dous pera cada emgenho seu e que sejam bõos oficiaes porque mestre daçucar ao presente tenho ca hú casado com sua molher o qual me tinhão ja no Spiritu Santo tomado e asoldado por três anos e lhe davão sasenta mil reaes por hú ano e eu ho ouve á mão vindo elle por sua molher e ho mandei pela câmara reter com penas grandes e fiz ficar ao qual lhe dou vinte mil reaes mortos por este primeiro anno que nam moio e dahi por diante como moer corenta mil reaes. E isto fiz a elle mais por força que por elle ter vontade comtudo fiqua seguro por ser casado que não ha outra cousa pera terra. Ora estes moedores á mester mandar buscar e termo-los certos e virem logo ainda que seja estarem hum ano sem Jogo fazerem seu ofício porque mais vai pagar lhe hum ano de vazio que telos seguros na boia e feitos a ella que nam ao tempo de faze-los emgenhos esperar por elles e perderem-se as canas e também porque neste anno primeiro sempre gastão em doenças e fazerem-se á terra, pelo que é necessário mandalos logo vir; e nom aja duvida a isto. Os meios que ouver mester eu os mandarei per hum rol de fora inda que nas cartas os peça pera que vá tudo mais largo e decrarado.

Jaa lhe digo, senhor, que pera estes engenhos de cavallos eu só, bento Deus, com João Velho abasto e com a fazenda que ao presente temos e daqui té lia se farão sem mais outros gastos que os que estam feitos, do Reino digo. Agora lhe quero dezer ho que se á mester pera os emgenhos daugoa de riba. Estam bem pera baixo omde estou é neçeçario ao menos virem sasenta negros de Guinee, logo este primeiro ano dos quaes faço conta de tomar os dez pera estes engenhos dos cavallos que isto soo lhes falece pera ajuda dos acarretos e lenha e os sincoenta irão pera os engenhos daugoa e com estes negros amde vir vinte homens outros a soldo e hü húa (?) palha imda que nas cartas lhe nam faço menção pera que he nem as rezões, porque tudo o que nelle for será farinha peneirada e o farello fora. E tudo pode crer que foy muy bem oolhado e he neceçario pera terra e nom se pode de tudo dar conta pelo meudo porque seria alem de emfadamento grande nunca acabar e jíorge Martinz dirá o que mais em tudo compre e a rezão porquê naquilo que souber.

Tenho pera mim que nenhúa cousa é pior pera armação que mandar cousas roins do que se deve goardar porque as baratas saem caras . s. o ferro do bom o milhor porque sae tudo em proveito e o roim que ha e nom se faz dele nada como este que ora veo. E assim toda a mais mercadoria do que se deve muito goardar que o ferro quando o mandar seja do milhor e as faquas de baixa sorte das milhores e asi as tisouras e toda a mais mercadoria e em boas caixas porque as tisouras que agora vierão nom aproveitão por virem em canastras e isto nom he minha culpa que eu ho avisei bem do caso e nom sey porque se nom lembra do que lhe escrevo pois tudo é seu proveito e serviço e oulhe de quem se Haa fia e de quem lhe isto compra porque qua vem tudo furtado e nom perqua o seu e pague Iho a quem no entregar. E oulhe os feitores que manda porque niso jaz o ponto. Eu farei imda outro pequeno sobre este homem que qua mandou e as cousas que falecem. Beijo as maaos de vosa mercê mil vezes.

Desta sua vyla da Rainha oje 18 de agosto de 1545.

 
 
DIAS, C. M., VASCONCELLOS, E. J. D. C., & GAMEIRO, A. R. História da Colonização Portuguesa do Brasil - Edição Monumental Comemorativa do Primeiro Centenário da Independência do Brasil. Vol. III. Porto: Litografia Nacional, 1922, p.262-263.
Acervo Biblioteca Nacional
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