1558: Traslado de alguns capítulos de cartas do padre Francisco Pires, que hão vindo do Espirito Santo*

1558: Carta que o irmão Antônio Blasquez escreveu da Bahia do Salvador, das partes do Brasil, o anno de 1558, a nosso padre Geral
01/08/2017
13/06/1559: Copia de uma carta do irmão Antônio de Sá que escreveu aos irmãos, do Espírito Santo
02/08/2017
 
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Trabalhos com os índios. — Baptismo e morte do filho do Gato. — O Governador. — O Cão Grande. — Concerto de um relógio.

A os 20 de Janeiro baptizei o filho do Gato[1] e casei-o com a sua Negra; foram seus padrinhos , Bernardo Pimenta e André Serrão. Foi feito esse officio com pouca soíemnidade, porquanto o índio estava doente e mal poude vir á egreja. Mas si foi pouco fadado o seu novo nascimento, foi mui fadada a sua morte, como em seu logar direi. No principio da quaresma mudamos a oração á noite, para que ficasse mais para outras cousas também necessárias, e depois da oração vimos á collação e acabada lemos lição de um livro espiritual, e praticando della alguns pontos, com isto passamos a hora. No primeiro domingo começou o a pregar com grande fervor e ás sextas-feiras á noite eu com grande tibieza; mas, segundo parece, o Demônio se poz da sua parte em desafio contra nós; estou a dizer que venceu, porque é um antigo pregador e traz nesta terra muitos cegos em sua falsa doutrina; finalmente moveu demandas e nellas muitos negócios entre os Principaes da villa: a alguns se atalhou, outros correm o seu curso e lá hão de chegar. Fazendo outra viagem á aldêa de Gerabaya, como de costume e regra de nosso tenho, me mostrou muita graça e bons desejos de querer a doutrina, mas é tão raramente esta visitação que se não pode fazer nenhum fructo. Elle me deu um formoso pão de cera para que o apresentasse a Nosso Senhor por elle: creio que este dar de luz é pedir luz; rogae a Nosso Senhor, Irmãos meus, que lh’a dê.

Aos dous do mez de Abril morreu Sebastião de Lemos, o filho do Gato, scilicet: á sexta-feira de Lázaro, e quinta feira estivemos com elle, e o irmão Fabiano, o qual fazia já alguns termos, e no que mostrava e dizia parecia bem Nosso Senhor tel-o escripto no livro da vida e no numero dos predestinados para o seu Reino. No extremo me não achei presente; morreu, segundo dizem, mui bom christão, com o nome de Jesus, nomeando-o muitas vezes, e que abria os braços e se abraçava com uma imagem que lhe tinhamos ali posto; eu lhe havia feito uma cédula, porque elle tinha alguns vestidos bons e outras cousas que, por tudo, chegavam a mais de 40 cruzados e isto á sua conta e contentamento, mas não se usou della por causa do pae; todavia, estando o pae presente, lhe disse que por sua alma e para lhe dizerem missas dessem ao Padre Vigário uma certa peça, a qual o pae depois d’elle morto deu. Fomos buscal-o com grande pompa e solemnidade: primeiramente o Padre Vigário levava um Crucifixo nas mãos coberto de luto, como ás sextas-feiras na quaresma se costuma fazer, e sua cruz diante e a dos meninos, e o Governador na procissão com toda a demais gente da terra, e assim, nós cantando e elles pranteando, o trouxemos á nossa egreja; muito se espantaram e edificaram os índios de ver aquelle concerto que dávamos, que logo na noite seguinte pregou Jaraguay, dizendo que aquella era a verdade e que deviam todos ser bons christãos. Certos dias depois do seu enterramento, lhe fizemos um officio cantado, ao qual esteve presente o pae e alguns dos seus, e o Governador o assentou entre si e seu filho ; acabado o officio o levou á sua casa para lhes fazer uma pratica por causa dos Negros, porquanto havia succedido entre ambos uma revolta, scilicet: entre os da terra e os Brancos, e estando eu presente disse ao Sr. Governador que lhe mandasse dizer que, para de todo ser nosso irmão, porque não tratavam da amizade e amor que havia entre elle e os Brancos; já não lhe faltava sinão ser baptizado e casado com sua mulher. Dizendo-lhe assim o lingua, respondeu que muito queria, e sua mulher, que estava presente, o mesmo; disse o Sr. Governador que, porquanto a amava muito, lhe queria fazer uma grande festa no dia do seu baptismo e por este amor queria que tomasse o seu nome e sua mulher o de sua mãe e seus filhos os nomes dos seus, e assim os poz cada um, e assim assentámos em baptizal-o para a festa do Espirito Santo.

Uma das cousas que nesta villa me alegrou foi o Sr. Governador fazer um grande milagre. Estavam os moradores desta villa mui desgostosos e com elle mui differentes por cousas que lhes elle fazia; quiz Nosso Senhor movel-o e mandou chamar a todos aquelles que lhe parecia estarem escandalisados e com boas palavras e mostra de sentimento lhes pediu a todos perdão com protestação que, si a algum havia damnif içado, o satisfaria e que d’ali por diante queria estar bem com todos; etiam uma Negra de que havia alguma suspeita pôz fora e quer casal-a.

Um dos trabalhos que corporalmente cá sentimos, maximé no verão, era ir á aldêa de Maraguay; porque esta terra é muito quente e deleixada e o caminho tinha algumas subidas, já me achei tal, posto que em tempo que andava mal disposto, que não sabia si fosse para diante ou si tornasse para traz; agora estamos fora desse trabalho e merecimento, posto que, si voluntas reputatur pro facto, não o perderemos, porque não deixáramos de ir até morrer, pois era nossa vinha e nos era pela obediência; por causa do negocio que disse, o Governador os mandou vir e ajuntar com estes que estão perto da villa. O Cão grande, irmão do Gato, mudou-se de sua terra para , daqui 6 léguas; mandou dizer ao Governador onde queria que se assentasse? mandou-lhe dizer que próximo do mar, para o caso de ser soccorrido quando necessário ; segurou muito esta villa e folgam muito ali com elle os moradores por esta causa. Logo que começar a assentar e fazer suas casas, iremos lá e saberemos si temos algum proveito. Houve por seu conselho vir-se para seu irmão, já está com elle; quer fazer mantimento e casa e logo trazer a mais gente. Vendo o Padre quanta falta de Fé e accrescentamento de maus e torpes costumes por falta de doutrina em os principios, pareceu-lhe bem tomar cargo dos meninos e escola, dos quaes agora é mestre e os ensina com muita caridade, não tão somente a ler, mas, o que é mais e melhor é para sua salvação, ensinando-lhes o caminho do eterno fim glorioso para que foram creados, scilicet: o Padre Nosso, o Credo, etc, por modo de dialogo, e não tão somente aos meninos, que vêm cada dia a uma certa hora á egreja, para a qual hora se tange o sino. Eu creio que, si houvesse, como ha lá em , corações que se pudessem mover, se moveriam ao amor do Senhor e seu serviço; mas nesta terra tudo é vergonteas novas e mais farpadas, cujo fructo é imperfeito, como são Mamalucos[2].

Acabo de concertar com o desconcertado relógio que temos. O Sr. Vigário negociou o como se ha de pagar, determinando tirar pelo povo para isso uma esmola; o Sr. Governador dará o que falta e temol-o já em casa a aprazimento de todos e com essa condição diziam que davam para isso suas esmolas.

 
 
Referência Bibliográfica

ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Cartas Avulsas, 1550-1568 (Cartas Jesuíticas, Vol. II). Rio de Janeiro: Officina Industrial Graphica, 1931. p. 194-197.

Créditos

Academia Brasileira de Letras.

Notas

[1] O Gato, o chefe dos índios alcunhados Maracayás ou gatos bravos. Cf. Simão de Vasconcellos (Op. cit., liv I, pag. 202): "Teve notieia (o Padre Braz Lourenço) que nas partes do Rio de Janeiro andavam em guerras cruéis duas nações delles, chamados uns Temiminós, outros Tamoyos, que se destruiam e comiam uns aos outros. . . Tratou com.. . Vasco Fernandes Coutinho que offereeesse agazalhado ao Principal dos Temiminós, que estava de peior partido e se chamava Maracayá-guaçú, que vem a dizer em a nossa lingua "o grande Gato". "Aeeeitou o grande Gato o offerecimento, etc." E adiante (liv. II, 46): "No anno de 1555 vimos a mudança que fez o Grande Gato, principal das povoações dos Temiminós das terras do Rio de Janeiro para as da Capitania do Espirito-Santo.
[2] "Mas nesta terra tudo é vergonteas novas e mais farpadas, cujo fruto é-imperfeito como são Mamalucos". Boa observação sociológica. O mamaluco, mestiço de indio e branco, era um ser ambiguo como é hoje o mulato, desprezando o selvagem (ou o preto) que já não é mais, e odiando o branco que não é ainda. A nossa sociologia por quatro séculos perturbada, sel-o-á por mais outros tantos, até purgarmos o sangue negro, como já purgamos o sangue indio. A vingança de Cham ha-de demorar.

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