1551: Carta* de Affonso Braz** mandada do porto do Espirito Santo do anno de 1551

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10/11/2016
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16/11/2016
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1551: Carta* de Affonso Braz** mandada do porto do Espirito Santo do anno de 1551

 
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Esta é a primeira carta a ser escrita do Espírito Santo, que se tem notícia. O Spirito Sancto publicou outra versão da mesma carta de Afonso Brás, comentada e com português atualizado. Para ler esta versão CLIQUE AQUI.
 
 

Porto Seguro. — Espírito Santo: estado da terra.

DEPOIS que escrevi o anno passado estando em a capitania dos Ilheos, partimos dous Irmãos e eu para Porto Seguro, que está 30 léguas dos Ilheos. Estive ali o mais do tempo confessando e ensinando a doutrina. Fez-se por graça do Senhor muito fructo em os Christãos. Confessavam-se já muitas vezes e gostavam da palavra divina e da doutrina christan, e assim concorriam com grande fervor a ella, a qual todos esqueciam, e era-lhe cousa mui nova. Estive alli pouco mais ou menos quatro mezes, e era tanta a devoção e affeição que todos me tomaram, que escreveram ao padre Nobrega e ao Governador que não consentissem que d’alli me fosse para outra parte. Mas emquanto este recado lá era, succedeu haver embarcação para o Espirito Santo, em a qual eu me fui, sem querer mais esperar, assi como me era mandado. Partimos aos 23 de Março, ficando a gente mui desconsolada, e muitos com lagrimas chorando. Ha do Porto Seguro ao Espirito Santo 60 léguas. Receberam-nos quando chegamos os moradores com grande prazer e alegria; e des que cheguei até Paschoa, não me occupeí, nem entendi em outra cousa sinão em confessar e fazer outras obras pias. Passada a Paschoa, ordenamos de fazer uma pobre casa para nos podermos recolher nella. Ella está já coberta de palha, e sem paredes. Trabalharei que se edifique aqui uma ermida junto della em um sitio mui bom, em a qual possamos dizer missa, confessar, fazer a doutrina e outras cousas semelhantes.

Grande é o fruito que por bondade do Senhor se fez e faz entre os Christãos, elle seja por tudo louvado: porque uns se apartam de suas mancebas, e outros as deixam e se casam, e determinam de se emendar e ser bons ao diante. Queira o Senhor conserval-os em seus bons propósitos. Os jogadores permaneciam muito em seus maus costumes e vicios, e eram maus de arrancar delles.

Agora por graça do Senhor estão mui emendados, e tenho-lhes tomado muitos jogos de cartas e dados, de que os que ainda estão obstinados murmuram, mas eu, olhando áo proveito que disto se segue, não descanso de os perseguir. Fazemos cada dia a doutrina aos escravos desta villa, que são muitos.

Não ouso aqui bautizar estes Gentios tão facilmente, ainda que o pedem muitas vezes, porque me temo de sua inconstância e pouca firmeza, sinão quando estão em o artigo da morte. Tem-se cá mui pouca confiança nelles porque são mui mudaveis, e parece aos homens impossivel poder estes vir a ser bons christãos, porque aconteceu já bautizar os Christãos alguns, e tornarem a fugir para os Gentios, e andam depois lá peiores que d’antes, e tornam-se a metter em seus vicios e em comer carne humana. O mesmo fazem alguns que já estiveram em Portugal. Nosso Senhor queira por sua infinita misericórdia haver piedade de tantas almas perdidas e tão apartadas e esquecidas de seu Creador. São tantos[1] e é a terra tão grande, e vão em tanto crescimento que, si não tivessem continua guerra, e si se não comessem uns aos outros, não poderiam caber. Compadecei-vos, Irmãos meus, desta gente tão bruta, e pedi ao Senhor ne despiciat opus manum suarum.

E ‘ esta terra onde ao presente estou a melhor e mais fértil de todo o Brasil[2]. Ha nella muita caça de monte, muitos porcos montezes, e é mui abastada de pescado. Não vos esfrie, Caríssimos, serem os Gentios (como disse) tão mudaveis e inconstantes, para que por isso hajais de perder os fervores, e grandes desejos de vir cá a trabalhar por amor de Deus e salvação destas almas, porque omnia Deo possibilia sunt, qui poterit de lapidibus istis suscitare filios Abrahce. E espero que vossa caridade será tão grande que os mudará, e vossa constância tão inteira que os fará perseverar em a fé e serviço do Senhor. Pôde ser que tão ruins eram os da Bahia, dos quaes muitos que os Padres bautizaram são mui bons christãos, e permanecem em nossa santa Fé, trabalhando por viver em bons costumes.

Nosso Senhor nos dê perseverar em seu santo serviço, para que em esta vida sua santa vontade em tudo cumpramos.

 
 
ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Cartas Avulsas, 1550-1568 (Cartas Jesuíticas, Vol. II). Rio de Janeiro: Officina Industrial Graphica, 1931. p. 87-89.
Acervo Biblioteca Nacional
* Copiada no livro de registro "Cartas dos Padres da Comp. de Jesus sobre o Brasil"... cit. fl. 11. Pbl. em traducção italiana nos "Diversi Avisi Particolari" p . 50-52 e em português na "Rev. do Inst. Hist., t. 6o, p. 441-2.

** O Padre Affonso Braz [Afonso Brás] veiu ao Brasil com os Padres Salvador Rodrigues, Manoel de Paiva e Francisco Pires, por chefe delles, na segunda missão, em 50. Foi mandado primeiro aos Ilhéus e Porto Seguro e depois ao Espirito Santo em 51, para onde partiu com o irmão Simão Gonçalves. Em 53, quando o Padre Nunes passou por ahi, com os padres que fora de reforço, buscar á Bahia, foi com elle, trocando o posto com o Padre Braz Lourenço. Foi mestre de obra e obreiro da edificação do Collegio de S. Paulo (Carta XVI). Em 67 servia em S. Vicente, em 70 sujeito ao superior José de Anchieta (Anchieta, Carta desta data).

[1] Não só a guerra e o cannibalismo, mas, com a civilização, as pestilencias importadas e o álcool, as bebidas distilladas, as quaes, onde o indio não foi assimilado, deram cabo delle. Adiante, este mesmo padre fala de mortifera epidemia ou peste de bexigas que dizimou o gentio do Espirito Santo, "os quaes morriam a montes", diz Franco. Os vinhos ou cervejas indígenas, "cauim", de cajuim, nome que se generalizou ás bebidas de todas as frutas e raizes, eram nada, comparadas ao " cauim-tatá", cauim do fogo, bebidas distilladas em que arderam os Brasis. Aliás o álcool é a vingança da Civilização contra os Bárbaros.

[2] Terão os filhos da terra capichaba, os Espirito-Santenses guardado lembrança desse primeiro galanteio á sua provincia, tão sensiveis que são os Brasileiras a taes gabos? Já na carta anterior o Padre Antônio Pires refere-se com louvor a terra do Espirito Santo.
 
 
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