13/06/1559: Copia de uma carta do irmão Antônio de Sá que escreveu aos irmãos, do Espírito Santo

1558: Traslado de alguns capítulos de cartas do padre Francisco Pires, que hão vindo do Espirito Santo*
01/08/2017
22/09/1561: Alguns capítulos de uma carta do padre Luis da Grã* pera o padre doutor torres
03/08/2017
 
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Vasco Fernandes, o Gato. – Padre Braz Lourenço. – Diogo de Morin – Medo dos Francezes. – O indio Manemoacu carregado pelo Diabo. – Escravidão de índios. – Baphsados. – Casos edificantes. – Aldeia de Vasco Fernandes. – Catechese.

A SUMMA graça, etc.

Parece-me que Nosso Senhor, como piadoso condoendo-se dos trabalhos e desgostos, que levamos os dias atraz passados nos quer agora consolar com sua costumada clemência: Iceiati sumus pro diebus quibus humiliati sumus, annis quibus viâimus ma e portanto não servirá esta mais que para dar-vos informação como nosso Vasco Fernandes, principal dos índios, esta mui arrependido e posto noutro propósito do que antes tinha, porque crê que é verdade que os Christãos todos os momentos e horas o estorvam do pôr em obra o que o Senhor lhe havia inspirado e viu-se tão importunado delles que se poz á outra banda com toda sua casa.

Nós outros por saber o que tinhamos, fingimos que nos queríamos ir desta terra, não por sua causa, sinão porque com os seus não podiamos fazer nada, porque logo os Christãos os vinham estorvar e a elle lhe metiam tantas cousas na cabeça que o faziam andar ‘daquella maneira, a qual palavra (como quem já começava a sentir nossa presença) doeu-lhe tanto que disse: Si o Padre se for para Ia, eu me irei para ca, id est, que si o Padre Braz Lourenço si fosse para a Bahia, elle se iria para Tapemeri, dando-nos a entender que, si ede e toda a sua gente estava na terra, era por nossa causa, e pois elle tinha vindo do Rio de Janeiro tão longe por amor de nós, que não parecia formoso irmo-nos e deixal-o, pois era já christão.

E depois de dizer a perda que causaria a ida do Padre (porque como não houvesse quem reprehendesse os peceados, tudo havia de dar de travez) se começou a enojar contra os moradores christãos chamando-os de cunumis, id est, moços, lastimando-se muito porque faltavam já os velhos. Finalmente elle se determinou que queria logo fazer sua aldeia aonde o doutrinássemos.

Nós outros vendo-o tão acceso, lhe dissemos que corria no povo que como podia ser que Gentios que sempre mataram e comeram carne humana, et reliqua, havia Deus de permittir que ao cabo de sua vida se haveriam de salvar, mormente sendo tão máos, e elles que nasceram logo christãos, iam sempre á egreja, haviam de ir ao inferno? Ao que elle respondeu “que portanto eram elles mais de culpar que sobre ser christãos, são tão máos, e eu, com não haver mamado desde menino o leite, sou quasi tão bom como elles, porque me apartei de muitos costumes de meus passados, e depois que fui christão nunca mais conheci outra mulher sinão a que me deram em matrimônio, e elles fazem tudo ao revez disto, e já que elles dizem isto, eu quero pôr-me agora de verdade, e, venha o que vier, eu tenho de ser melhor christão que elles, e o pouco meu em comparação do seu ha de ser muito, porque não me é dado tanto como a elles”.

Concluiu-se este negocio que logo poria mão á obra, como viessem outros Principaes que lhe haviam de ajudar. Eu tenho de ir Ia a estar de estada para lhes ensinar a doutrina e para o demais que fôr serviço de Sua Divina Magestade. Estou hoje muito contente deste Principal, por que, além de naturalmente ser muito prudente e sagaz, depois que se fez christão o acho mui obediente nas cousas que pertencem á lei de Deus. Elle me disse que estava apparelhado para beber o calix repugnante á sua sensualidade, hoc est: de fazer e cumprir o que lhe mandarem e soffrer o jugo da lei de Christo. E bem posso dizer (si o que tenho visto nede não me engana): Benedictus Deus qui circumlenivit nostrum acrimonice poculum cceleste melle suoe suavitatis quod possit ab his gentilibus absque ulla refutatione potari.

Depois que assentei os mortos que se haviam finado os mezes atraz passados, que, como já saberão, foram muitos assim dos lactantes[1] e innocentes como dos adultos, achei que neste mez de Março quiz o Senhor levar para si oito, quatro adultos e quatro innocentes: ede lhes dê sua bemaventurança.

A 23 dias de Abril chegou aqui Diogo de Morin[2], e com sua chegada poz a toda vida em medo e alboroto, pensando que fossem Francezes [franceses], e com estar os mais delles doentes, o medo os fazia sãos, e todos punham a mão ao trabalho, fazendo uma cerca de pipas e tonneis aterrados, esperando a nova certa porque tinham para si que uns nove Francezes que daqui fugiram os dias passados iriam dar rebate ao Rio, onde estão os outros Francezes. Emfim, indo a ver, acharam o que era; mas não estão com tudo isto seguros, porque todo o povo os espera cada dia.

Não deixarei de contar uma cousa mui digna de admiração, pela qual se verá claramente como o Demônio, inimigo dos homens, anda muito raivoso e indignado por ver que temos levado este anno tão grande prenda de almas, que na mortandade passada, depois de serem baptisadas, levou o Senhor para si. O caso é o seguinte: Tinha Vasco Fernandes, nosso Principal, um filho por nome Manemoacu, o qual estava mui doente na aldeia da villa. Estando elle assim, uma noite de grande tempestade o tomaram os demônios em corpo, e com grande estrondo o levaram arrastando e maltratando. Acudiram os da aldeia ao arruido e gritos do pobre Negro e tomaram tições de fogo e foram-se pelo rasto até o porto de Manoel Ramalho e dali por diante o perderam. Deram logo a nova a seu pae, que é grande nosso amigo, com a qual foi mui triste e anojado, dizendo’ que si lhe morrera não lhe dera tanto, mas ser levado de tão ruim gente lhe pesava muito. O padre Braz Lourenço o foi a consolar dando-lhe esperança que, si não era morto, que elle appareceria, como de feito dahi a três dias appareceu, e logo mandou ao Padre as novas, dizendo, que por elle haver confiado tanto nas palavras que Lhe dissera, havia apparecido e agora tem ao Padre grande credito e por verdadeiro pajé.

O pobre índio contava que, depois de havel-o posto no porto de João Ramalho, o levaram a Santo Antônio com tanto Ímpeto e clamor que a si mesmo não se podia ouvir nem entender; daqui o pozeram no porto de Jaravaia e por concluir diz que o pozeram entre muitos outros onde se fizera muito mal. Aqui vio muitos fogos e mui horriveis. Finalmente, depois de todos estes martyrios, o arrojaram entre uns mangues, onde se maltratara muito e ficara fora de si com tantos tormentos como passara, que por isso não conhecia aos seus quando deram sobre elle e fugia delles como si foram demônios. Tudo isto permitte o Senhor para que venham a conhecimento da sua Lei, considerando perverso o dominio do Demônio. Elles todos attribuem isto ao padre Braz Lourenço e tem-lhe grande amor toda esta aldea, gratias Deo.

Vendo o padre Braz Lourenço como os índios vendiam seus filhos e parentes aos Christãos, de que elles tinham mui pouco escrúpulo, antes lhes parece que fazem bem, movidos por seu interesse e não pela salvação de suas almas, como elles pensam, poz a mão neste negocio falando aos moradores com quanto perigo de suas almas tinham aquellas peças. Alguns movidos disso fizeram câmara sobre elle e de commum consenso assentaram que não era bem que as taes peças se resgatassem, e para que a cousa ficasse mais firme determinaram de firmar-se por todos aquelle concerto.

Mas o Demônio, como via que perdia aqui muito, assim da parte dos índios como da dos Christãos, porque com estes contractos a todos tem enlaçados no profundo da perdição, trabalhou quanto poude de impedir isto, pondo alguns na vontade que não firmassem, a outros que contradissessem a obra, a outros que se arrependessem de haver posto seus nomes, a outros que dissessem que não parecia bem isto, por que estavam pobres de peças, por que todas lhes haviam morrido eom a doença do anno passado, e que, si não compravam estas, que não tinham outra parte donde pudessem resgatar. Mas o inimigo não ganhou nada com estes ardis, por que o Capitão mandou apregoar que ninguém as comprasse, sob pena de as perder, com tantos ducados emcima. Queira o Senhor que dure muito, porque, a ser assim, é uma grande cousa para nosso ministério e para as almas dos Christãos quietos.

Este Corpus Christi fizemos um baptismo dos índios com suas mulheres, e casando-os juntamente com ellas; fez-lhe Azeredo uma grande festa e banquete. Entre elles era um que já era christão, que se chama Gaspar, o qual foi baptisado pelo padre Francisco Pires, quando aqui estava; outro se chama Matanim, com sua mulher que tem também dado mui boas mostras, segundo saberão pelo padre Francisco Pires, que o conhece muito bem e é grande amigo seu. E certo quanto á apparencia de fora tanto provera a Deus fosse a minha. Delle podemos com verdade dizer que é um doutor entre os seus, e o que mais comprehende no juizo o que lhe dizem e muito melhor que muitos christãos brancos; onde duvida pergunta e deseja saber inteiramente a sentença daquelle passo; mas eu espero que aquella Divina e Summa Sapiência lhe communicará de dia em dia mais cousas e lhe abrirá os olhos no conhecimento da Fé, para que seja espelho e exemplo dos outros com pregações e exemplo da vida, como elle tem feito antes de ser christão, e agora alcançada esta graça, faz muito mais e com dobrado fervor.

Porei aqui algumas cousas que lhe tenho ouvido para que louvem ao Senhor. Primeiramente lhe ouvi dizer falando comigo que, antes que recebesse sagrado baptismo, andava mui apartado de Deus, e cheio de maldades e que trazia uma grande carga que o fazia andar mui pesado; mas depois que o baptisaram ficara mui descarregado e que ficava mui junto a Deus, assim como o aço com o ferro quando o caldeiam. Um dia indo o Padre á aldeia e depois de haver estado com elle, levantou as mãos ao Ceo; mandou o Padre perguntar-lhe que si elle não sabia as orações como havia de falar com Deus? Respondeu elle muito bem e disse: Direi: Senhor, até aqui não vos amei foi por que não vos conheci, mas conhecendo-vos vos amarei. Benedictos Deus, pois a burra de Balaão havia de dizer tão grandes cousas. Uma vez lhe disse que pouco a pouco iria sabendo as cousas do Senhor. Concedeu-me que sim, pondo-me uma comparação que assim como á casa se põem primeiro os alicerces e depois armam sobre ella todo o edificio, que assim havia elle de ser. E, louvores ao Senhor, aborrece já muito seus costumes, nem quer ir á outra banda quando fazem vinho, dizendo que os vinhos são causa de apartar uma alma de Deus, e que portanto não ha de ir lá, nem morar com elle em sua companhia, por que por força ha de ser como elles, e que, si o Padre se mudar para onde elles estiverem, que então o fará, e de outra maneira não. Certo, carissimos, que isto é muito para quem sabe quão caro lhes custa tiral-os disto.

Uma cousa lhes direi para que dêem louvores ao Senhor e saibam quão adiante estão alguns destes Gentios, pois fazem algumas cousas movidos pelas inspirações do Senhor que por temor, pois nesta terra não ha com que se lhe faça. Tinha um índio uma filha e por não querer estar com elle, para íhe fazer o que fosse necessário, vendeu-a aos Christãos. Sabendo-o o Padre, me mandou que lhe puzesse um temor, dizendo-lhe que não lhe visse mais seu rosto nem apparecesse ante si (por que vinha elle algumas vezes á casa a pedir o baptismo), nem fadasse mais nelle, mas que si morresse que o havia de enterrar nos muladares. Ficou o pobre Negro confuso, pondo-me muitas escusas por que a vendera; mas eu encarecia-lhe mais o negocio, ao que elle tornava a replicar que lho perdoassem, que elle não faria outra, e como desconfiado de poder alcançar nossa amizade, me disse que se queria ir a outra banda, por que nem elle a nós, nem nós outros a elle o vissemos, por estar mui envergonhado. Então, vendo-o, o consolei com brandas palavras encarecendo-lhe ainda seu peccado, e por ver sua firmeza e constância lhe disse: Si tu fores e te puzeres de joelho diante do Padre, pedindo-lhe que te perdoe e tomares umas disciplinas e te fores açoitando pela villa, eu fico por fiador que te perdoará.

Fel-o assim; e entrando o Negro pela casa, fingiu o Padre que estava muito agastado e não ousou pôr-se de joelhos como se dispunha quando entrou. Perguntaram-lhe o que buscava. Disse que vinha por seus peceados que tinha feito. Finalmente para abreviar, elle se despiu e tomou umas disciplinas, se foi publicamente açoitando pela villa e aos que lhe perguntavam por que se açoitatava, respondia que por suas maldades e por poder alcançar a amizade de Deus e do Padre. Tornou á casa e então lhe disse o Padre que pouco a pouco se lhe iria aquella melancolia, ficando elle com isto mui satisfeito e contente.

Outro que se chama Gonçalo, o qual baptisámos estando para morrer, havia feito outra como o passado, e não ousava apparecer diante do Padre por lhe haver dito eu o que disse ao outro. Mas elle mostrava sentir isto muito, e tornar á amizade do Padre que antes era seu amigo, havia já muito tempo. Disse-lhe eu si queria fazer o que o outro fizera? o que fez e muito melhor que o primeiro, e é muito para maravilhar, sendo um Principal tão grande.

De modo que veio logo outro dia de manhã, e posto de joelhos diante do Padre, lhe pedia com humildade lhe perdoasse. Aggravou-se por mandado do Padre seu peccado, dizendo-lhe quão mal havia feito em vender a filha de sua irmã, ao que respondeu que era verdade que havia feito grande mal e tam bem sabia que, por o Senhor estar enojado contra elle, lhe morrera aquelles dias sua filha; mas que o Demônio havia entrado nelle e fizera que elle fizesse aquillo, porém que estava apparelhado a fazer qualquer penitencia que lhe impuzessem por seu peccado. Deu-se-lhe a mesma penitencia que ao outro, e foi por toda a villa nú, açoitando-se, pregando mui alto e manifestando sua culpa. O que dizia (segundo depois soube) era que altas vozes pregava que Nosso Senhor estava mui enojado contra elle por haver vendido sua sobrinha, mas que esperava elle que com aquillo que fazia lhe havia de perdoar. Depois de haver corrido a villa, se veio a nossa egreja e pedio ao Senhor que lhe perdoasse e o mesmo fez diante do Padre, pondo-se de joelhos e com as mãos levantadas pedindo misericórdia, que já não queria roupa nem ferramentas, pois tanto mal e damno lhe causaram, e nunca se quiz levantar até que o Padre lhe disse que se levantasse. O Padre lhe disse que pouco a pouco se lhe iria aquella melancolia, que era tão grande que ainda não se lhe podia despedir; e vestindo-se me disse si já poderia ir a egreja? por que, como eu lhe dissera que si morresse que o haviam de enterrar nos muladares, daqui inferio que também lhe prohibiram entrar na egreja, tirando por uma cousa a outra. Eu lhe disse que fosse e pedisse misericórdia ao Senhor, e, segundo estava amedrontado, não lhe mandaram cousa que não fizera. Eu fui depois á aldeia e consolei-o, e aviséi-o que não fizesse outra, por donde pagasse um e outro, e executasse o Senhor nelle e sua mulher outro castigo assim como em sua filha. Este foi grande afamado no Rio de Janeiro e foi Principal de quatro aldeias: conto-lhes isto para que mais louvem ao Senhor.

Este mez morreram dos nossos baptisados quatro adultos e dos innocentes três; dê-lhes o Senhor sua gloria. Mil impedimentos ha posto o inimigo para que esta aldea de Vasco Fernandes não se ponha por obra, por que, como determinamos de residir nella, teme já a perda que ha de receber com a nossa estada, e daqui vem que estando muitas vezes os índios a ponto e não faltando nada para que se puzesse logo a mão, dahi a pouco achava-os logo transtornados com cousas que outros lhe mettiam em cabeça, pretendendo com ellas excusações para impedir o começado. Algumas vezes lhes reprehendia esta sua inconstância, comparando-os aos meninos que por nada se enojam e crêem quanto lhes dizem. Tudo me soffrem, por que entendem que os amo e busco por todas as vias seu proveito. Uma vez foi lá o Padre para apontar o que era necessário para o sitio de nossa egreja e casa. Concluiu-sè por então lá que elles, por haver pouco que haviam feito suas casas novas, não se mudassem daquelle logar, e que elles fariam uma egreja para qualquer parte que desejássemos.

Com isto nos viemos com propósito de tornar lá para concluir o negocio, o domingo seguinte; mas o Demônio não deixou de fazer das suas, por que, estando para partir, sobreveio tão grande chuva que quasi nos fazia deixar aquillo para o outro dia; mas o Padre, como bom zelador destas almas, conhecendo ser isto obra do inimigo, disse que, ainda que chuvesse a cântaros, haviamos de ir para confusão do inimigo. Fomos nós outros levando pelo caminho grande água; mas em chegando á aldea, cessou logo de chuver, por donde conhecemos todos ser impedimento do inimigo.

Como chegamos, o principal Vasco Fernandes foi logo pelas casas pregando para que se ajuntassé a gente, e juntos todos os Principaes e a outra mais gente, Gonçalo Alvares lhes fez uma pratica, a qual não conto por ser mui grande e o tempo breve. Somente se conclue que elles folgavam com nossa estada para que lhes ensinassemos a doutrina e cousas do Senhor, e não esperavam sinão por bom tempo para começar logo a egreja e casa. Vasco Fernandes perante edes disse que a par de nós outros havia de viver, que se queria apartar daquelles demônios, entendendo pelos seus. Por aqui verão, carissimos Padres, quanto pomos de nossa parte, sed Dominus incrementum dabit.

Por todo este mez de Junho se porá a mão nesta obra. Queira o Senhor levar ao cabo o que se dignou começar nestas almas que tanto lhe custaram. O Padre determina de pôr-me lá com alguns meninos destes; então com ajuda do Senhor espero escrever-lhes novas do muito serviço do Senhor. Também me tem dado o assumpto de ordenar como se faça a casa e a egreja. Ajudem-me com suas orações, para que tudo faça conforme a vontade de Nosso Senhor.

Esta escrevi mui depressa por estar o navio para partir; depois succederam algumas cousas e, entre ellas; esta; que já está roçado o sitio da nossa casa, por que indo á aldea disse a Vasco Fernandes que, si por tempo, que aquelle era mui conveniente, pois fazia dia claro, que fossemos logo a começar. Sua mulher, D. Branca, me ajudou também, de modo que fomos a roçar e deixando-os com muita obra me vim. Porém para que melhor tenha os meninos feitos a minha mão, ordenamos de fazer um tixipar[3] no meio da aldeia, por logo ir-me para lá. Todos os índios me desejam muito que me venha e são-me mui affeiçoados; também Dona Branca, mulher do Principal, é muito minha devota, e eu trabalho por estar bem com ella, por que tendo-a de minha parte, tenho toda aldeia e não se faz nada sinão o que ella quer.

Um Negro que baptisou aqui o padre Francisco Pires, estava amancebado e por não ousar apparecer diante de nós, sé foi para Mariguegype, e Ia adoeceu e indo lá o Padre um dia com Gonçalo Alvares, lhe disse que por que não se apartava? Elle respondeo que devagar se faziam as cousas. Veio-se elle doente para a villa, o qual encontrando-me disse-me largara já a manceba, e que a dera a seu pae, que já conhecia que aquella enfermidade lhe vinha por aquelle peccado e que estava mui arrependido.

Um índio que se chama Belchior está posto em jejuar todos os dias que manda a Egreja, e sem eu lhe fadar nada, perguntou-me que lhe fizesse saber os dias de jejum, e qual delles não se comia carne, dizendo-me que, antes que morresse João Ramalho, que elle lho dizia e apontava todos os dias que a Egreja manda e parece que o Senhor lho disse, por que aquelle mesmo dia que elle me disse isto, me disse o Padre que lhe dissesse que tinha de jejuar.

Eu ensino agora cá a doutrina christan e as orações em nosso romance[4], como sempre fizemos, depois que nos mandaram dizer que era necessário concertarem-se alguns vocábulos que estavam na doutrina. Si lá tiverem alguma maneira de ensinarem na lingua brasilica, mandem-nol-a, por que de outra maneira difficultosamente se lhes metterá na cabeça, ainda que lhes vozeem cada hora e cada momento. Elles me dizem que nosso romance é muito trabalhoso de tomar, mas nem por isso lhes deixo de ensinar todos os dias, e acodem-me todos quantos ha na aldeia, por que os levo por minha simples maneira e algumas vezes fado em lingua brasilica com elles o que sei e contentam-se muito. Dizem-me que mais lhes fica o que lhes digo que si fosse de outro grande lingua: tudo sejam dados louvores aquelle benignissimo Senhor, que por trabalhoso instrumento quer mostrar as riquezas da sua misericórdia, que eu mais era para a cozinha e outros officios baixos que correspondessem á baixeza de meu espirito, que não para ser ministro em obra de tanta dignidade como é adquirir almas ao Senhor. Elle por sua infinita clemência perdoe as faltas e erros que neste officio cada dia commetto, e a vós, Irmãos meus, peço com grande desejo de ser de vós encommendado em vossos sacrifícios e orações.

Hoje, 13 de Junho de 1559 annos.

Indigno irmão vosso.

 
 
Referência Bibliográfica

ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Cartas Avulsas, 1550-1568 (Cartas Jesuíticas, Vol. II). Rio de Janeiro: Officina Industrial Graphica, 1931. p. 212-222.

Créditos

Academia Brasileira de Letras.

Notas

[1] Lactantes — Vd. Carta XLVI. Os médicos discutem como se deve chamar aos meninos de peito, que ainda mamam ou bebem leite. Está aqui. Também "lactentes". Vd. nota 147.
[2] Diogo de Morin será "Diogo Morim", de que fala Frei Vicente do Salvador (Op. cit., III, 7), a propósito da expedição do filho de Mem de Sá ao Espirito-Santo, que assumiu o commando, por morte de Fernão de Sá? Capistrano (in Varnhagen, Op. cit., tomo I, pag. 397) assimila este a Diogo de Moura (Vd. nota 117): sel-o-á também o nosso. O "provavelment e " do mestre tem cabimento. Adiante, outro ponto permitte ponderação histórica: "no porto de João Ramalho"... Cândido Mendes tirou dahi illação que o famoso João Ramalho (de S. Paulo) ainda vivia em 58 ou começo de 59, vista a data desta carta. Capistrano de Abreu contesta-o mostrando que esse era outro, do Espirito Santo, donde escreveu o Padre Antônio de Sá. (in P . Seguro, Op. cit. tom. cit., pag. 116) .
[3] Tixipar ou tixupar (Carta XLV), aliás tijupá. Varnhagen escreve "tujupar" (Op. cit., pag. 246) e Capistrano "tijipá": como o primeiro escreve Fr. Vicente do Salvador (Op. cit., p . 179), que define: "tujupares, que são umas tendas ou choupanas de palha."
[4] Romance, linguas romances, linguas novi-latinas derivadas da romana: o nosso romance é o português.

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