10/06/1562: Carta do Brasil, do Espirito Santo, pera o padre Doutor Torres, por commissão do padre Braz Lourenço, de 10 de junho de 1562, e recebida a 20 de setembro do mesmo

22/09/1561: Alguns capítulos de uma carta do padre Luis da Grã* pera o padre doutor torres
03/08/2017
26/06/1562: Carta do padre leonardo, da Bahia de Todolos Santos, de 26 de junho de 1562, para os padres e irmãos da Companhia de Jesus, em S. Roque
05/08/2017
 
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Pifficuldade de communicações. — Egreja de Santiago. — . — Fabiano e mais dois Irmãos. — Melchior de Azeredo. — Ataque de Francezes. — Organisação de uma aldeia. — Tupinaquis.

PAX Christi.

Havendo de escrever a V. R. o que Nosso Senhor pólos da nossa Companhia obra nesta do Espirito Santo, me pareceu bem dar-lhe primeiro’ informação da mesma terra, para que, sendo de tudo informado, julgue in Domino o soccorro e ajuda que se lhe deve.

Esta capitania está 120 léguas de S. Vicente e outras tantas da , onde os nossos Padres residem, e passa-se ás vezes muito tempo que nem presencialmente, nem por cartas se podem communicar uns com outros, como agora se aconteceu que ha perto de dous annos que por aqui não passou algum dos nossos[1], nem veiu recado seu por falta de embarcação; e assi por isto, como por também não virem aqui navios do Reino, por não haver aqui de assucar, deixam os Padres muitas vezes de dizer missa por falta de vinho, e padecem outras necessidades que seria largo contal-as.

Temos aqui umas casinhas pobres com uma egreja da vocação de Santiago, na qual estão dous Padres e dous irmãos; um é o paire Braz Lourenço, que haverá nove annos que aqui reside com o carrego de Superior: occupa-se em pregar e confessar aos Brancos e em lhes ensinar seus filhos e em tudo o mais de nosso ministerio, com muita edificação da gente, á qual é muito acceito, porque conversa elle antre elles com aquella prudência e simplicidade que Christo Nosso Senhor encommendava a seus discipulos. E, faltando por tempo a esta villa vigário, tem elle o cuidado de ministrar todos os sacramentos a todo o povo.

O outro é o Fabiano[2], ao qual é encommendada a conversão dos índios, porque para isto lhe deu Nosso Senhor mui’to bom talento; tem também carrego de doutrinar a escravaria dos Christãos, que aqui é muita, e é ministro desta casa, na qual serve a Nosso Senhor em seus servos com muita diligencia e alegria e com muita edificação de todos.

Um dos Irmãos é coadjuntor temporal; não sabe ler nem escrever ; homem de meia idade, manso e humilde e prompto na obediência, serve commummente de cozinheiro e hortelão, trata com muito amor aos Irmãos, tem muitos legumes e fruitas em seu pomar, especialmente a que chamam bananas, que duram todo o anno e são grande ajuda para sustentação desta casa.

O outro é um mancebo de dezoito até vinte annos, de bom engenho e hábil para tudo; acaba agora sua provação, sabe algum tanto da lingua destes índios e aprende latim; é manso e modesto, serve ao Senhor.com muita promptidão e alegria na obediência. Além deste está aqui outro moçosinho seu Irmão, puer bontz indolis, será de doze annos, ainda não é admittido; este também aprende latim: ensina-os o padre Braz Lourenço. E com elles ha um Indiosinho da Bahia, que aqui criou, será agora de 12 até 14 annos, habilissimo para tudo, pregou este anno passado a Paixão em portuguez á gente de fora, com tanto fervor e devação que moveu muito os ouvintes, mas estes são fruita que pouco dura sem apodrecer nesta terra.

Ha mais nesta casa 5 ou 6 meninos deste Gentio já christãos, a que os Padres ensinam a doutrina, e servem de levar o padre Fabiano em uma almadia á aldeia dos índios, e vão pescar e pedem esmola para seu comer. Os nossos Padres se mantêm do que Sua Alteza manda dar, ainda que aqui lhe não dão mais que pera dois e elles são os que digo, de modo que lhe é necessário viverem também do trabalho de suas mãos ut neminem gravent; nem pedem esmola.

Sua egreja é pobre, a qual nem ornamentos, nem retavolos, nem umas galhetas tem, como digo, mal providos de vinho e farinha pera as missas. Lembre-se V. R., por amor de Nosso Senhor, de lhe fazer vir alguma esmola destas cousas, e também d’algum panno para se vestirem e algumas outras cousas pera remédios de suas necessidades.

Aqui nesta capitania, como já disse, têm muito credito aos nossos Padres e devação á nossa Companhia; muita gente se confessa em nossa casa entre o anno, e muito mais se confessara si não fora estarem muito embaraçados com peças que compram a estes índios, os quaes lhe vendem os parentes desamparados, cousa que os nossos Padres nunca poderam estorvar: dizem estes Christãos que os não querem ter por captivos sinão como por soldadas. Nosso Senhor lhe ordene com que se ponham em estado de boa consciência .

O Capitão a que chamam Melchior de Azeredo[3], pessoa mui nobre e pera este officio mui sufficiente, assi por sua virtude e saber como por ter elle animo pera sujeitar estes índios e resistir aos grandes combates dos Francezes [], é muito nosso devote e ajuda e favorece em todas as cousas tocantes á conversão dos e em tudo o de mais que cumpre a serviço de Nosso Senhor. Todos os seus negócios e cousas de consciência communica sempre com o padre Braz Lourenço, a que elle tem muito cre dito, e obediência in Domino, e é muito nosso familiar, e nos man da commummente ajudar com suas esmolas.

Este anno passado, despois que o governador Men de Sá [Mem de Sá] destruiu a fortaleza no , foi esta capitania mui com batida dos Francezes, os quaes, entrando neste porto com duas naus mui grandes e bem artilhadas, se puzeram defronte desta povoação, cousa pera causar assaz terror por serem os moradores poucos, as casas cobertas de palha e sem fortaleza. Acudiu o Capitão eom todos os mais a se encommendar primeiro a Santiago, como sempre costuma indo a suas guerras, nas quaes Nosso Senhor o favorece com lhe dar sempre vencimento; sahiu o padre Braz Lourenço a elles, e, tomando a bandeira do bemaventurado Santiago nas mãos, se foi com elles até ao logar do combate, aonde houve de uma parte e d’outra muitos tiros, dos quaes nem-um fez damno aos da povoação nem a ella; mas antes um dos nossos lhe deu com um falcão ao lume d’água em uma das suas naus, com o qual se puzeram em fugida; e os Christãos, seguindo seu Capitão, se foram apóz elles em almadias com muita escravaria ás frechadas até os lançarem fora do porto.

E ainda este anno veiu outra nau delles rodear esta barra e deitou uma chalupa fora com gente a explorar o porto; mas, sentida dos Christãos, foi logo corrida e se acolheu. De modo que a gente desta capitania vivem com estes sobresaltos, esperando que seja de S. A., para poderem ser ajudados com algum soccorro pera sua defensão, porque, emquanto fôr d’outrem, nunca será bem provida, nem nos poderemos aproveitar muito em nosso ministério pela inquietação da terra.

Os índios de que o padre Fabiano tem carrego estão em uma grande aldêa que lhe elle fez fazer aqui arriba da povoação dos Christãos, em um bom sitio onde lhe fez fazer uma grande egreja, mui airosa e bem guarnecida, com uma casa pera os nossos quando ali vão: esta egreja é da vocação de , e muito pobre por que nem ealix tem; um desses ornamentos de que lá não fazem muita conta lhe fora cá mui bom pera as festas. Fez também fazer outra grande casa, na qual está um homem devoto com sua mulher, que ali tem muitas moças daquelles índios debaixo de sua disciplina, e as ensina a alfaiatas e a fiar, etc ; destas se casam com os mancebos já doutrinados e instruidos nos bons costumes.

A esta aldêa vae o mesmo padre Fabiano todos os dias haverá dous annos, partindo ante-menhã desta casa em uma almadia, ora contra a maré, ora com chuva e frio, que é um trabalho incomportavel; á qual chegado, vai logo um índio porteiro pelas casas, apregoando que se não vão fora antes de irem aprender á egreja, onde se ajuntam-e lhe faz o Padre a doutrina, ao qual elles têem muita reverencia, e é temido e amado delles; aprendem honestamente as cousas da Fé, vivem apartados de seus antigos costumes e muitos são já christãos; o seu Principal, a quem os Padres ordenaram que fosse ouvidor, é temido e estimado dedes; têm aleaide e porteiro; quando algum deve, é trazido diante delle, e, não tendo com que pague, lhe limita tempo pera isso, segundo o devedor aponta. Têm um tronco em que mandam metter os quebrantadores de suas leis, e os castigam conforme a seus delictos. As leis ordenaram elles, presente o padre Braz Lourenço e um língua e desta maneira: o Principal perguntava o castigo que davam por cada um dos delictos; dizendo-lho a lingua, elles o acceitavam; somente os casos em que incorriam em morte lhe moderou o Padre.

E assi vivendo em sua lei nova, acertou uma índia christã casada de fazer adultério; foi aecusado o adúltero e condemnado que perdesse todos seus vestidos pera o marido da adultera[4], e foi mettido no tronco, de modo que ficaram tão atemorizados os outros, que não se achou dali por diante fazerem outro adultério; mas si algum pecca, logo é aecusado ao Padre, o qual manda que o castiguem .

Haverá nesta aldêa 1000 almas e são estes os índios que pera aqui vieram do Rio de Janeiro estes annos passados, os quaes sempre foram amigos dos Christãos. Muitos parentes destes estavam misturados com os Tupinaquis que aqui perto vivem, os quaes o capitão Melchior d’Azeredo fez mudar pera um bom sitio, que está por este rio arriba, aonde tem muitas e boas terras e estão muite mais á mão e melhor apparelhados, apartados dos Tupinaquis, para nelles podermos fazer fruito. Fomol-os vêr um dia destes, e o sei; Principal, que é homem entendido e desejoso de se fazer christão nos agasalhou com das gallinhas e caça do matto, mostrando-nos o logar que já tinha limpo para nos mandar fazer a egreja. Determinam os Padres de o casar cedo, fazendo-o christão. A mulher para este, qüe é uma moça dos seus, ensina a mulher do Capitão em bons costumes, a qual também é devota de nossa Companhia e em cousas semelhantes pôde favorecer muito nosso ministério.

Aqui nesta casa se criaram uns moços dos da Bahia, os quaes os Padres casaram com destas moças dos índios, e dedes aprende ram a tecelões e as mulheres a fiar e alfaiatas, e ganham sua vida ao modo dos Brancos, que é cousa muito pera estimar nestes que tão pouca habilidade têm.

Os Tupinaquis, que acima digo, é gente mui pouco aparelhada para se fazer fruito nelles; vindo uns poucos delles os dias passados úa guerra, souberam nossos Padres que traziam carne humana para comerem. Acudiu logo lá o padre Fabiano, e não lhe achando mais que um braço, lh’o deitou no mar e lhe tomou algumas oito almas que traziam captivas, e trouve-as ao Capitão que as fizesse repartir pelos Brancos e as pagassem a seus donos para que as não comessem.

Isto é o que se offerece para escrever a V. R., pedindo-lhe nos faça sempre encommendar a Deus Nosso Senhor pelos da Companhia dessa Provincia, para que em tudo sejamos sempre favorecidos e ajudados de Sua Divina Bondade nestas terras tão estranhas, in médio nationis provai.

Desta capitania do Espirito Santo, a 10 de Junho de .

Por commissão do padre Braz Lourenço[5].

 
 
Referência Bibliográfica

ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Cartas Avulsas, 1550-1568 (Cartas Jesuíticas, Vol. II). Rio de Janeiro: Officina Industrial Graphica, 1931. p. 337-343.

Créditos

Academia Brasileira de Letras.

Notas

[1] Vide notas 126 e 191.
[2] O Padre Fabiano de Lucena, que Nobrega trouxe do sul, ainda irmão, em 56 e depois sacerdote serviu no Espirito Santo. Vd. nota 91. Provavelmente é della a carta XLVII, eseripta por commissão do Pe. Lourenço, havendo na Capitania esses dois padres e dois irmãos bisonhos, um dos quaes não sabia ler nem escrever.
[3] Melchior ou Belchior de Azeredo é homem principal do Espirito Santo, indicado pelo povo a Mem de Sá, em 60, quando, de passagem do Rio para a Bahia, visitou a Capitania, dada a desistência do donatário Vasco Fernandes Coutinho, pobre, aleijado, doente e que viria a fallecer em 61. Ficou Melchior de Azeredo por capitão mór. Quando Estacio de Sa foi mandado em 64 a povoar o Rio, e vencer os Tamoyos ainda ajudados de Erancezes remanescentes, de caminho Belchior de Azeredo e o chefe tememinó Martim Affonso Ararygboia tomaram passagem na expedição. No Rio obraram proezas. Com 8 canoas, depois de renhido combate, para os lados de Paquetá, aprisionou Melchior de Azeredo duas canoas inimigas de vinte que se reuniam para dar ataque á recente colônia. De 64 a 66 ha documentos dos bons serviços que a Estacio de Sá prestou o capitão mór do Espirito Santo.
[4] O adultério é venial, nos extremos da civilização e da barbaria. Cf. Nobrega (Cartas, 66) : " . . . é costume até agora entre elles não fazerem caso do adultério, tomarem uma mulher e deixarem outra, como bem lhes pareee, e nunca tomando alguma firme". Yves d'Evreux (Op. cit., pag. 42): "lis sont fort liberaux de ce qu-ils ont de plus cher, comme sont leurs filies & leurs femmes". Essa penalidade em espécie, devia impressionar aos bárbaros.
[5] Esta carta não trazia firma, accrescenta em nota o Mss. da Bibliotheca Nacional.

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