04/08/1556: Cópia de uma* do irmão Antônio Blasquez** da bahia a 4 de agosto de 1556, para os padres e irmãos de s. Roque

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04/08/1556: Cópia de uma* do irmão Antônio Blasquez** da bahia a 4 de agosto de 1556, para os padres e irmãos de s. Roque

 
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Partida de Nobrega de S. Vicente. — Descripção da viagem. — do . — Os irmãos , Antônio de Atouguia, Lucena. — Chegada de Nobrega [] á .

CHEGOU já o tempo, Carissimos, no qual nos ha querido o Senhor consolar. Nosso Provincial, Manoel da Nobrega, depois de haver passado muitas tormentas e tempestades pelo mar, chegou a esta Bahia a 30 de Julho de 1556, e foi recebido de nossos Padres e Irmãos com tanto gosto e alegria quanta era necessária que tivéssemos filhos que tanto tempo havia que isto esperávamos; mas parece que o Senhor nos quiz compensar o trabalho passado com, além de sua vista, também nos consolar com as Constituições que nos trouxe, duas cousas que tanto desejávamos. Estamos, pois, agora com isto tão alegres que não sei como vol-o declare, e porque creio que já terão algo disto experimentado, deixovos na consideração disto, e passarei a dar-vos relação do que a nosso Provincial aconteceu depois que sahiu de S. Vicente.

Partiu desta capitania, véspera do Espirito Santo, a 3 de Maio de 1556, e em sua companhia trouxe quatro Irmãos e um Padre, em cuja viagem lhes fez o Senhor as mercês que costuma fazer aos seus; porque, partindo elles de S. Vicente nas monções, tempo conveniente para se navegar; por serem os ventos contrários em logar de irem adiante, tornaram atraz, de modo que o que se soe navegar em quatro dias sem nenhum enfado, o andaram elles no espaço de quinze, com muitas vezes estarem em risco de perder as vidas, pela grande tormenta e tempestade do mar; mormente em um dia andou tão bravo e furioso, que a todos pareceu ser aquelle o derradeiro de seus dias, pelo que deitaram um Agnus Dei ao mar, o qual, sentindo em si a virtude d’aquella Santa Reliquia, amansou logo, e d’ali a meia hora ficou tão quieto e socegado que, sem temor d’ahi por diante, fizeram a sua viagem até chegarem á capitania do Espirito Santo, na qual residia o padre Braz Lourenço e o irmão Antônio de Atouguia.

Aqui se começou logo a semear a palavra do Sagrado Evangelho, dando o nosso Padre o encargo disso a dous Irmãos que sabiam a lingua brasilica, e que a tinham já por muito tempo exercitado na capitania de S. Vicente. Foi o concurso que então acudiu á doutrina assim dos escravos dos Christãos como dos Gentios que estão em sua liberdade, porque dado que antes lhes ensinassem a doutrina, todavia como então lh’a declaravam na sua lingua, com algumas praticas e declarações della, cousa por elles nunca vista, cresceu em seus corações um novo desejo de aprenderem as cousas da Fé, assim que, por amor disso, ordenou o Padre no tempo que alli esteve, que o irmão [1] fosse pela villa com uma campainha a convocal-os em Deus e, depois que os tinha juntos, fazia-lhes primeiro a doutrina em nossa lingua, e depois, com uma breve declaração, a tornava a dizer na sua. Houve algumas índias que, com as exhortações destes Irmãos, se moveram a confessar-se, sendo elles os interpretes e o Padre Provincial o que as confessava.

Nisto se fazia algum fructo e se fizera muito mais, si o Padre não partira logo. Todavia, antes que dali se viesse, deixou ordenado que se fizesse cada dia a doutrina nesta povoação, deixando para esse fim e para ser interprete das confissões ao irmão Lucena, que sabe rasoavelmente a lingua, e porque estava longe, em outra aldêa, ficou concertado que cada mez a visitassem, e outra, por estarmos próximos, cada semana duas vezes.

Os Mamalucos e filhos dos índios, tirou-os de nossa casa e pol-os em outra de fora, a par da nossa, tomando-os a seu cargo um leigo bom homem. Emquanto se não effectuou isto, tinham-os alguns devotos em suas casas por amor de Deus.

Em casa esses 15 dias que ahi esteve, tomava cada noite hora e meia para declarar as Constituições, e os dous Irmãos que com elle vieram, ultra da occupação de ouvir as confissões dos índios e fazer a pratica mui quotidiana, também se occuparam em trasladar as Constituições para que, já que não podiam gozar da vista do Padre que lh’as declarasse por extenso, depois da sua ida com ellas soubesse como se haviam de haver. Depois que no Espirito Santo se poz em ordem o que convinha aos Irmãos, despedido delles, fez seu caminho para , mas os ventos impediram que chegasse tão cedo, porque arribaram a um porto a 10 léguas do Espirito Santo, onde tiveram novas que nesta capitania, depois da sua partida, cresceu o concurso das confissões em tanto que, si houvesse interpretes para ouvil-as, teriam bem que fazer, ainda que não se occuparam em outra cousa.

Depois que chegou a Porto Seguro, continuou-se o mesmo exercício que no Espirito Santo, repartindo os Irmãos, um na ermida de Nossa Senhora, o qual tinha cuidado de ir eom dia a uma aldêa dos Gentios que está a uma légua de Nossa Senhora, e depois tornava a fazer o mesmo á povoação de Santo Amaro, e, feito este serviço ao Senhor, fazia a sua volta para ermida; o outro Irmão estava em Porto Seguro exercitando o mesmo que est’outro.

O fervor dos índios ás confissões e doutrina ha sido tanto, que, nunca depois que estou cá nesta terra, hei ouvido outra cousa semelhante e sem duvida que, si não estivera informado dos Irmãos, que dera pouco credito ao que dos outros tenho ouvido, porque tenho visto cousas nelles que demonstravam ser impossivel encaixar-se-lhes isto. Dêm louvores ao Senhor que a gente boçal do já começa a dar o fructo desejado, e dal-o-á de dia em dia mais, si de lá nos ajudarem com suas orações e nos mandarem obreiros para esta vinha do Senhor.

Nosso Padre não ha mais de seis dias que chegou a esta cidade, e nesse pouco tempo ha constituido que todos os dias se faça a doutrina aos índios em nossa casa, e vai em tanto crescimento que, com ser hoje o terceiro dia, vieram 100 pessoas, das quaes está mui satisfeito o Irmão que as ensina, porque me disse que via nellas muita reverencia para as cousas que lhes dizia. Os meninos e Irmãos da casa andam todos com grande fervor de saberem a lingua, e parece-me que cedo a saberão, tanto pelo desejo com que a ella se applicam, como porque para a aprender têm uma arte que trouxe o Padre Provincial. Prazerá á Sua Divina Bondade que, com ella e com as mais orações que de S. Vicente vieram, aprendemos tudo o que convém para a conversão desta Gentilidade.

Não mais, Caríssimos: vão dar as doze e hão de vir de madrugada pelas cartas; com outro navio, que partirá d’aqui a poucos dias, escreveremos outras cousas que, por estarmos com tanta pressa, não podemos. Das Constituições não digo nada, porque ainda não nol-as hão declarado; de tudo se fará relação, como as exercitarem. Deus Nosso Senhor esteja com todos. Amen.

Da Bahia do , hoje, quarta-feira, 4 de agosto de 1556.

Vosso em Jesus Christo irmão.

 
 
ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Cartas Avulsas, 1550-1568 (Cartas Jesuíticas, Vol. II). Rio de Janeiro: Officina Industrial Graphica, 1931. p. 57-64.
Academia Brasileira de Letras
* Copiada no livro de registro "Cartas dos Padres da Comp. de Jesus sobre o Brasil...", cit., fl. 144, em castelhano. Pbl. na "Revista do Inst. Histórico", t. 49, parte Ia, pag. 1. Esta e todas as outras cartas do Padre Antônio Blasquez aqui publicadas, foram por Teixeira de Mello reunidas em volume á parte, restricta edição de 12 exemplares e 1 exemplar em papel especial para S. M. o Imperador, com o seguinte titulo: "Cartas do Padre Antônio Blasquez da Companhia de Jesus, escriptas do Brasil 1556-65, Rio de Janeiro, Laemmert & .a, 1886, IV, 122 pags. 22X15,5.

** Vd. nota 88. Antônio Blasquez, castelhano, veiu na terceira Missão, em 53, com o Padre Luis da Grã. Em 65 foi mandado a Porto Seguro com o Padre Ambrosio Pires; ahi ensinava a ler e escrever e "poderá mais ensinar grammatica" diz o seu companheiro (C. Av., X V I I ) . Louvando a Anchieta por ler em S. Vicente aula de latim "o primeiro nestas partes", diz o Padre Pedro Rodrigues (Vida do Padre J. de Anch., "Ann. da Bibl. Nacional", 1907, t. XIX, Rio, 1909, p . 109) que só em seguida o Irmão Antônio Blasquez começou a fazer o mesmo na Bahia. Em 61 diz delle o Padre Luis da Grã (C. Av., XLII) : "está ao presente mui ao cabo e temo que vá por diante sua doença".

[1] Antônio Rodrigues. Vd. nota 136.
 
 
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