Do rio doce athe a ponta de Agasuipe (1640)
03/10/2017
Do porto do spirito santo até a ponta a que chamão do rio doce (1640)
05/10/2017
 
[quads id="1"]
 
 

Este mapa encontra-se no Descripção de todo o Maritimo da terra de S[an]ta Crvs chamado uulgamento o Brazil, por João Teyxeira Cosmographo de sua Maiestade, anno 1640, cuja autoria é de , o Velho. Ele é acompanhado de mais dois mapas do . A obra está na Biblioteca Nacional da França, em Paris.

Junto com o mapa, há a seguinte descrição:

Do Cabo de São Tome, que como disse, esta em altura de 22 graos, corre a costa ao Norte 36 legoas, ate o Morro de João Moreno, que hé hum monte que esta na entrada do Porto do Spirito Santo, em altura de 20 graos e hum quarto: em toda esta costa não temos porto notauel, mais que o Rio Iritiba, em que podem surgir Caravellas em fundo de duas braças, e ao Norte delle 8 legoas, outro Rio com tres ilhas pequenas: na entrada delle que se correm de Noroeste Sudeste, entre ellas e a boca do Rio, podem surgir em 4 braças; chamão a estas Ilhetas do Goroparj; e do mesmo nome esta huma pouoação pelo Rio a cima, distancia de 5 legoas; naõ ha nesta costa outra cousa de que se faça menção.

 

Os topônimos presentes no mapa são:

  1. Parçel que bota cinco legoas ao mar
  2. Cabo de São Tome. onde acaba a Capitania de Pero de Goes, e entra a do Spirito Santo
  3. Paraiba, tem abundancia de peixe
  4. Aqui nem barcos podem entrar
  5. Neste Rio entraõ os barcos que vaõ pescar nesta Lagoa da paraiba e passão por terra os barcos e os metem na lagoa pera pescarem e depois os tornaõ ao rio, pera sairem pera fora
  6. Monte Aga
  7. Barreiras vermelhas
  8. Rio onde surgem caravellas
  9. Serra de Goropary
  10. Ilhas de Goropary
  11. Engenho de Marcos Fernandez de Monsanto
  12. Goropary
  13. Caza de fruta
  14. Ilha Escaluada
  15. Morro de Ioão Moreno

Em 1640, João Teixeira utilizou uma coloração marrom para o terreno, completado com um marrom mais escuro, alguns tons avermelhados e até mesmo roxos para simbolizar os morros. A vegetação é escassa. As lagoas e rios são de um azul escuro, que continua nas proximidades do litoral, mas que não se mantém em mar aberto.

Começando a analisar os mapas que vão do Cabo de São Tomé até o Porto do Espírito Santo, sua descrição diz que não há porto notável nesse espaço além do encontrado em Reritiba e em Guarapari. As descrições destacam a profundidade do “rio Iriritiba” (“fundo de duas braças”) para poder dizer que é possível entrar no porto com caravelas: fato importante para o comércio na região, onde havia aldeia dos .

Ainda de acordo com a descrição dos mapas, Guarapari (cujo nome aparece com diferentes grafias em cada descrição) seria o nome das três ilhas ao norte de Reritiba e, assim como no mapa, no texto o cartógrafo também situa ali uma povoação. Apesar de o texto dizer que não outra coisa a mencionar, os mapas chamam a atenção também para a lagoa da Paraíba.

O “Iriritiba” se destaca pelo arrecife e pela presença jesuítica. Gabriel Soares já escrevia que esta terra é “muito grossa e boa para povoar como a melhor do ”, além de ter “um arrecife ao mar, que boja bem uma légua e meia, a qual ponta é de terra baixa, ao longo do mar”[1].

O rio de Guarapari aparece em todos os mapas posteriores a 1640. Próximo a ele, no interior, há sempre as Serras de Guarapari, que eram conhecidas também como Perocão. De frente para o rio, textos da época registram três ilhas, duas delas mais distantes e uma mais próxima ao litoral[2]. É possível que sejam as hoje conhecidas Três Ilhas, um arquipélago turístico nas proximidades de Guarapari.

A “Goropary”[3] do mapa foi também uma aldeia fundada no século XVI, e a primeira das aldeias jesuítas a se tornar no Espírito Santo, em 1679, durante o governo de . Sua origem está ligada aos conflitos com os franceses pela posse da região do Rio de Janeiro, quando os portugueses teriam conseguido grande apoio indígena para a expulsão dos inimigos.

Na cartografia, ela aparece no interior. As descrições dos mapas afirmam que a aldeia ficava cerca de cinco léguas para o interior, seguindo o rio. Isso parece um equívoco: ainda hoje é possível visitar a igreja jesuítica de Guarapari e as ruínas de outra e ambas ficam bem próximas ao litoral[4].

De volta aos mapas de Albernaz, próximo de Guarapari, no correr do mesmo rio, há uma menção ao engenho de . Exceto em , em que só está escrito “Emgenho”, o nome de Monsanto aparece em todos os demais mapas da família Teixeira. Monsanto era um espanhol que tinha pelo menos três engenhos em Guarapari[5], mas ficou realmente conhecido após ter suas propriedades confiscadas logo após a Restauração portuguesa, acusado de se manter fiel à Coroa castelhana[6]. Ele era proprietário dos engenhos desde os últimos anos do século XVI e no tempo do confisco já morava em Castela e os mantinha em sociedade com o filho, Luis Correa Monsanto. Estes engenhos se tornaram, portanto, os únicos não particulares apontados pela documentação do Espírito Santo.

No interior, há umas “Serras de Goropari”. Essas serras, hoje chamadas de Serra do Castelo (também conhecida como Serra Capixaba), são uma ramificação da Serra da Mantiqueira. Ela se aproxima do litoral do Espírito Santo principalmente na altura de Guarapari. É possível que ela esteja representada no mapa devido a essa aproximação, que a destacava na vista da região.

Já bem próximo do morro de João Moreno, há uma “Caza da Fruta” (hoje Ponta da Fruta). Pouco se escreve sobre ela, mas textos recentes baseiam-se em crenças populares para afirmar que este lugar teria ganhado destaque e recebido este nome porque José de teria se hospedado ali, uma ou mais vezes[7]. Essas hospedagens aconteciam nas viagens que o jesuíta fazia constantemente entre o colégio jesuíta de Santiago, em Vitória, e a aldeia de Reritiba[8].

Vemos no mapa ainda uma sonda no oceano, em frente à lagoa da Paraíba; e um parcel[9], no canto esquerdo, na direção do Cabo de São Tomé. Este cabo aparece no extremo sul do mapa, onde, inclusive, foi escrito que ali é a divisa entre a Capitania de Pero de Góis e a do Espírito Santo. Esta informação já foi discutida[10]. Neste mesmo mapa mais antigo, na altura da lagoa da Paraíba (hoje Lagoa de Cima, no município de Campos dos Goytacazes), está escrito que ela não podia ser alcançada diretamente pelo mar, mas apenas a partir do rio, por onde se subia até local onde se carregavam as embarcações até lá. Todo esse trabalho, segundo o mapa, era pela riqueza de pescaria.

Um pouco mais para o norte, vemos pela primeira vez na cartografia tanto o “Monte Aga” (hoje Monte Aghá) quanto as “Barreiras Vermelhas”. As barreiras vermelhas são falésias, que hoje ficam no município de Marataízes. Em alguns mapas, o Monte Aghá aparece na mesma latitude da Ilha dos Franceses, entre Reritiba e o . Não há qualquer outra informação sobre ele nos mapas ou nos textos. O mesmo acontece com a maior parte das serras que aparecem na cartografia, como a de Guarapari. De acordo com Cristiano Bodart, foi nas proximidades do monte que se estabeleceram os primeiros habitantes da região e um possível significado desse nome, em tupi, seria “lugar de ver deus”[11]. Entretanto, a etimologia parece inadequada[12].

A Serra de Guarapari e o Monte Aghá servem, na cartografia, para o mesmo fim que a Serra do Mestre Álvaro e o Morro de João Moreno já serviam no século XVI para Luís Teixeira: marcos do litoral, facilmente reconhecidos para os navegantes que se aproximam da costa. É possível perceber, assim, como a cartografia funciona também como instrumento de navegação, destacando os acidentes naturais como marcos do território do Espírito Santo da mesma forma que é feito nos roteiros de navegação do século XVII.

 

Nesta obra, este mapa é acompanhado de mais dois mapas do Espírito Santo, como pode ser visto abaixo. Cada um deles é acompanhado de uma página com uma descrição do mapa. Clique para acessar informações de cada um:

 

 

Informações

Do cabo de S. Tome ate o Morro de João Moreno. [Escala ca 1:480 000]. 5 léguas = [5,2cm]. 1640. 1 mapa em 1 bifólio : ms., color., papel ; 23,5x37,5cm, em folha de 29,6x41,6cm. In: Descripção de todo o Maritimo da terra de S[an]ta Crvs chamado uulgamento o Brazil, por João Teyxeira Cosmographo de sua Maiestade, anno 1640. – 1640. – Fol. 11. - João Teixeira Albernaz, o Velho. - Pert.: Biblioteca Nacional da França, Paris.
[1] Sousa, 1587/1851, pp. 93-94.
[2] Sousa, 1587/1851, p. 93.
[3] Apesar de normalmente indicarem a etimologia guara + pari: armadilha de guará, um pássaro, Eduardo Navarro propõe algo diferente em seu Dicionário de Tupi Antigo. Pare ele, Garapari vem de “De ybyrá + apari~: árvore curvadinha, nome de árvore cunoniácea”. Navarro, 2013, p. 562.
[4] A cidade de Guarapari, hoje de turismo de verão, tem um roteiro de visitação a pé para turistas, em cujo estabelecimento tive alguma participação, mesmo que pequena. Além das igrejas, o roteiro também passa por um antigo poço, à beira da praia, onde os jesuítas buscavam água. Mais informações em: http://www.guarapari.es.gov.br/portal/index.php/turismo/historico-cultural .
[5] Ribeiro, 2010, p. 15.
[6] Apees/Ahu. Arquivo Público Do Estado Do Espírito Santo. (1997). Projeto Resgate da Documentação Histórica Barão do Rio Branco - Documentos Manuscritos Avulsos da Capitania do Espírito Santo (1585-1822), Conselho Ultramarino - Brasil / Arquivo Histórico Ultramarino [2 CDs ROM]. Lisboa: Instituto de Investigação Científica Tropical.Cx. 1, Doc. 17A
[7] Abreu, R. (2009). Ponta da Fruta. Acesso em:  15/04/2014, Disponível em: http://www.morrodomoreno.com.br/materias/-ponta-da-fruta.html
[8] Este mesmo caminho é percorrido hoje anualmente por muitas pessoas, e recebe o nome de Passos de Anchieta.
[9] “Banco de pedra debayxo daagua” Bluteau, D. R. (1720). Vocabulario Portuguez & latino (O-P). Lisboa: Officina de Pascoal da Sylva. p. 263.
[10] Ver capítulo anterior
[11] Instituto Histórico E Geográfico De Piúma. (2014). Monte Aghá: entre história e geografia. Disponível em: http://ihgpiuma.wix.com/inicial#!o-monte-agh/c1iuj
[12] De acordo com o Dicionário de Tupi Antigo de Eduardo de Almeida Navarro, “lugar de ver deus” seria tupã + epîak + -aba, ou algo como “tupapiacaba”, em interpretação minha. O sufixo –aba, que significa “lugar”, poderia ter gerado a variante “aga”, ou “Aghá”. Por outro lado, agûa ou gua’a, em tupi, significa altibaixos (que tem altos e baixos, terreno acidentado). Navarro, 2013, p. 13 ou 129.

Analisado em: As representações cartográficas da Capitania do Espírito Santo no século XVII, de Fabio Paiva Reis.
Biblioteca Nacional da França, Paris.
Disponível em: http://catalogue.bnf.fr/ark:/12148/cb40601636d
 
 
[quads id="2"]
 

Deixe um comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

%d blogueiros gostam disto:
//]]>