Diario da navegação da armada que foi á terra do Brasil – em 1530 – sob a capitania-mor de Martim Affonso de Sousa, de Pero Lopes de Sousa

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Diario da navegação da armada que foi á terra do Brasil – em 1530 – sob a capitania-mor de Martim Affonso de Sousa, de Pero Lopes de Sousa

O Diário da Navegação da Armada que foi à terra do Brasil em 1530[1] é um relato, escrito por Pero Lopes de Sousa, da expedição de seu irmão Martim Afonso de Sousa, de 1530-32. É peça chave para se entender a luta de séculos entre Portugal e Espanha pelo controle do estuário do Rio da Prata e o primeiro documento a descrever a costa sul-americana.
 

Fragmento relativo ao Espírito Santo no diário de Pero Lopes de Sousa (P. L. d. Sousa, 1839, pp. 22-25).

Quartafeira vinte dias do mes d’abril pela menhãa me cheguei á nao capitaina ; e me disse o capitam J. que com o grande vento, que de noite ventara, lhe quebrara o masto do traquete , abaxo da gavia huma braça ; e que queria arribar á Bahia de todolos Santos; e a todos nos pareceo mui bem, por nam ser ja tempo para dobrar os baxos d’Abrolho. Estando nisto, nos deu huma trovoada de lesnordeste ; e como passou, ficou o vento em leste e tomava do nordeste ; e o capitam J. tornou a mandar que virássemos no bordo do sul; e assi fomos até á noite, que no quarto da prima que se nos fez o -vento lesnordeste: e faziamos o caminho do sul- sueste.

Quintafeira vinte e hum d’abril ao meo dia tomei o sol em desanove graos menos hum terço: fazia-me da terra vinte leguas. O vento se nos fez leste, e com elle faziamos o caminho do sul com todalas velas. De noita se fez o vento lesnordeste, e com as bolinas largas fazia-mos o dito caminho, levando resguardo, que cada relógio sondavamos; porque todolos pilotos se faziam ir por riba dos baxos d’Abrolho, que lançam ao mar trinta leguas, e o começo delles está em altura de desanove graos. E assi fomos toda esta noite com mui bom tempo, sem podermos tomar fundo com secenta braças.

Sestafeira pela menhãa se nos fez o vento nordeste, e com todalas velas faziamos o caminho ao sul. Ao meo dia tomei o sol em vinte e hum graos e tres quartos ; e como foi noite se nos fez o vento noroeste.

Sabado no quarto d’alva se fez o vento sudoeste ; e veo tam supito e furioso, que quasi nam deu lugar a amainar as velas; e ventou com tanta força (o qual ainda nesta viagem o nam tinhamos assi visto ventar) que as naos sem velas metiam no bordo por debaxo do mar: era tamanha a escuridam e relampados, que era meo dia e parecia de noite: á tarde se fez o vento sul. Andava o mar tam grosso e tam feo que nos entrava por todalas partes. No quarto da prima ao sair da lua abonançou mais o vento; ficou o mar tam grande que nos nam podiamos ter na nao. Da banda de bombordo me arrebataram os apparelhos , com o jogar da nao.

Domingo vinte e quatro dias do mes d’abril se fez o vento sueste; e nos fizemos á vela com o mar grande e mui cruzado: faziamos o caminho a lessudoeste; e de noite no quarto da modorra me acalmou o vento.

Segundafeira pela menhãa houvemos vista de terra, a qual era mui alta a maravilha: fazia-me della des léguas.

Terçafeira ao meo dia nos deu o vento nordeste , e com elle corríamos a costa , a qual se corre nordeste su doeste e toma da quarta de norte sul. De noite no quarto da prima mandei lançar o prumo ao mar; e tomei fundo com nove braças e mandei fazer fogos: e fiz-me no bordo do sueste; sempre sondando, quanto mais íamos ao mar, menos fundo achávamos.

Quartafeira vinte e sete do mes d’abril pela menhaa houve vista de terra huma legua della, em fundo de oito braças. O vento era mui bonança, quanto as naos governavam. A costa se corre nornordeste susudeste escasso: a terra he toda ao longo do mar mui chãa sem arboredo: no sartam serras mui altas e fermosas; haverá dellas ao mar des leguas, e a lugares menos. Ao meo dia se fez o vento da terra brando: fazíamos o caminho para o mar. Indo assi per fundo de oito braças, de supito demos em tres, e logo mais avante em duas e mea : tornamos a fazer o caminho de sudoeste ; e logo demos em fundo de quatro braças; e logo surgimos no dito fundo. E o capitam J. mandou lançar o seu esqui fe fora; e mandou nelle o piloto que fosse sondar por o rumo do sul , e do sudoeste , e do sueste. E á noite veo o piloto mor no esquife, e disse que pelo rumo do sueste, que era baxo, que nam achara mais de tres braças; que indo ao sul achara oito braças.

Quintafeira vinte e oito dias do mes d’abril ao meo dia tomei o sol em vinte e dous graos e hum quarto , e á tarde se fez o vento nordeste, e nos fizemos á vela pelo rumo do sul; e logo demos em fundo de seis braças ; e no quarto da prima nos acalmou o vento ; e surgi em fundo de quatorze braças , duas leguas e mea de terra.

Sestafeira pela menhâa nos fizemos á vela com o vento nordeste , indo sempre ao longo da costa tres leguas della, per fundo de cincoenta braças d’area limpa. O cabo do parcel, que jaz ao mar, se corre da banda do nordeste ao sueste, e da banda do sudoeste aloeste, e ás partes a loessudoeste. Quando fui fóra do parcel descobriam-se serras mui altas ao sudoeste. .Ao meo dia tomei o sol em vinte e dous graos e tres quar tos : ao sol posto fui com o Cabo Frio: como foi noite amainamos as velas , e fomos com os traquetes toda a noite. O Cabo Frio se corre com o Rio de Janeiro leste oeste: ha de caminho desasete léguas.

Sabado trinta dias d’abril, no quarto d’alva, era mos com a boca do Rio de Janeiro, e por nos acalmar o vento, surgimos a par de hua ilha, que está na entrada do dito rio, em fundo de quinze braças d’area limpa. Ao meo dia se fez o vento do mar, e entramos dentro com as naos. Este rio he mui grande ; tem dentro oito ilhas , e assi muitos abrigos : faz a entrada norte sul toma da quarta do noroeste sueste : tem ao sueste duas ilhas, e outras duas ao sul, e tres ao sudoeste; e entre ellas podem navegar carracas: he limpo, de fundo vinte e duas braças no mais baxo, sem restinga nenhiia e o fundo limpo. Na boca de fóra tem duas ilhas da banda de leste, e da banda d’aloeste tem quatro ilheos. A boca nam he mais que de hum tiro d’arcabuz; tem no meo huma ilha de pedra rasa com o mar; pegado com ella ha fundo de desoito braças d’area limpa. Está em altura de vinte e tres graos e hum quarto.

 

Texto Completo

 
 

Referência

Sousa, P. L. d. (1839). Diario da navegação da armada que foi á terra do Brasil - em 1530 - sob a capitania-mor de Martim Affonso de Sousa. Lisboa: Typographia da Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Uteis. (Original publicado em 1530).
 

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