22/09/1561: Alguns capítulos de uma carta do padre Luis da Grã* pera o padre doutor torres

13/06/1559: Copia de uma carta do irmão Antônio de Sá que escreveu aos irmãos, do Espírito Santo
02/08/2017
10/06/1562: Carta do Brasil, do Espirito Santo, pera o padre Doutor Torres, por commissão do padre Braz Lourenço, de 10 de junho de 1562, e recebida a 20 de setembro do mesmo
04/08/2017
 
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Estado pacifico da terra. — Carestia de paramento. — do . — Nobrega [], , . — O Governador.

GRAÇA e amor de Christo Jesus seja sempre em nossas almas.

Porque pela e depois pela caravela que veio a este engenho de que Deus haja, escrevemos largamente o successo das cousas desta terra e agora também o escreve o padre Antônio Blasquez, não farei nesta mais que apontar a Vossa Reverendissima algumas cousas, porque das mais sobre que escrevi esperamos por resposta na armada que se espera.

Esta terra está em tanta paz que não se pôde mais imaginar, e com isto enxerga-se tanto o fruito que se nella faz acerca da conversão, que com termos sete egrejas feitas em sete povoações muito grandes, é tanto o requerimento que os índios fazem por Padres que o vão doutrinar que, não somente a nós mas a todos os Portuguezes, faz desejar e pedir ao Senhor que inspire em Vossa Reverendissima que nos mande quem nos ajude, e assi com os que cá são, ando buscando todolos meios que posso pera remediar tão santa fome como esta gente tem de pão espiritual[1], e com atenças e esperanças de nos Vossa Reverendissima soccorrer aceitaremos agora quatro povoações que virão, negociadas pera quando em boa hora chegarem os Padres e Irmãos. E lembro a Vossa Eeverendissima que a cada Padre e Irmão que de lá vier, misturando-os com os que cá andam se ha de entregar uma povoação que ao menos passe de mil almas, porque algumas chegam cá a duas mil almas, que com a multiplicação dellas virão a ser muitas mais, e si ahi houvera Padres em abastança bem poderamos esperar de chegar mui cedo a , porque sos os que mataram o passado estão no meio, que mui facilmente se tirariam dali, e pera a banda dos Ilheos [Ilhéus] não ha duvida, porque eu venho agora de ver três sitios para três egrejas, que o derradeiro está 30 léguas encontra os Ilheos, porque ainda que por mar são trinta da Bahia aos Ilheos, por terra é dobrado caminho, e assi desejam os daquella comarca Padres em sua terra como si todo seu seguro tiveram posto nelles: está ella mui perdida com vexações que lhe fazem os que andam a resgatar, que parece que fora grande serviço de Deus ser a capitania dos Ilheos também de S. A.

Está esta casa tão falta de cousas necessárias para fundar egrejas, que nem cálices, nem pedras d’aras, nem retavolos, nem missaes, nem vestimenta, frontal, toalhas, etc. , temos. Vossa Reverendissima, por amor do Senhor, nos faça haver alguma esmola destas cousas.

Do padre Nobrega, depois que me delle apartei, não tive mais novas nem houve navio. Os do Espirito Santo bem estão e o ensino do Gentio ali vai muito em crescimento. Em Pernambuco está o padre Ruy Pereira com outro Padre; aqui na Bahia estou sustentando collegio com seu nome, pera com este titulo termos o que sem elle não podiamos ter, porque de fora não ha moços da terra que apprendam[2] (167), si não é a ler e escrever. Esperamos que Vossa Reverendissima nos mande muitos moços de partes convenientes pera haverem de ser da Companhia que, entretanto que o não forem, aprendam a lingua e sejam conhecidos dos índios que folgam muito com aquelles que com elles se criam e a estes são affeiçoados e lhes tem credito. Mande-nos Vossa Reverendissima dizer como nos haveremos com estes índios acerca dos dízimos, que até gora lhe não temos dado disso noticia, mas dizem-me que os rendeiros lh’a começam a dar. Parece que Sua Alteza lh’os havia de dar pelo tempo que parecesse.

Estes dias passados tiveram os moradores grande requerimento com o Governador sobre os índios, querendo que o juiz dos orphãos desse de soldada os moços e moças orphãs e outros pediam também os casados. O Governador teve mão nisso, porque o que vir ser serviço de Deus ha de sustentar com o zelo que tem da virtude verdadeiramente, que é mui fiel no serviço de Deus e grandíssimo atalhador aos males que se ordenam na terra e sabido quão maus christãos são os escravos do Brancos e a pouca doutrina que em sua casa têm.

O Governador tomou por sua devação fazer-nos a egreja que haverá sete annos que é começada, sem nunca se poder acabar até que cahiu por ser de taipa, e a que agora faz é de pedra e cal e detrimina de a fazer mui grande.

Em tudo lhe devemos muito, e por bondade do Senhor o Governador, Bispo e Ouvidor temos mui favoráveis a tudo o que nos é necessário para favor da conversão.

O padre Antônio Blasquez está ao presente mui ao cabo e temo que vá por diante sua doença; outros também estão mal dispostos; os demais estão bem e certo que, com assaz de trabalho que elles padecem, mui alegremente ajudam cada um por sua parte. Vossa Reverendissima nos faça encommendar em as orações dos Padres e Irmãos e nos lance sua benção.

Deste collegio de Jesu da cidade do Salvador, bahia de Todolos Santos, hoje 22 de Setembro de 1561.

Inutillissimo filho de Vossa Reverendissima.

 
 
Referência Bibliográfica

ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Cartas Avulsas, 1550-1568 (Cartas Jesuíticas, Vol. II). Rio de Janeiro: Officina Industrial Graphica, 1931. p. 291-294.

Créditos

Academia Brasileira de Letras.

Notas

*: Luis da Grã nasceu em Lisboa, estudou Direito em Coimbra, onde entrou para a Companhia em 43, chegando a reitor do collegio. Com D. Duarte da Costa, em 53, veiu ao Brasil, chefiando a terceira Missão Jesuitica, composta dos Padres Braz Lourenço, Ambrosio Pires, e quatro irmãos João Gonçalves, Antônio Braz ou Blasquez, castelhano, Gregorio Serrão, e Joseph Anchieta, eanarino. Em 55 foi a S. Vicente avistar-se com Nobrega, e entrou no sertão para buscar índios a doutrinar; ahi o deixou Nobrega, partindo para a Bahia. Em 60, tornou á Bahia e com a sua presença se accendeu o zelo pela conversão do gentio, pela doutrinação e desobriga de colonos e escravos, pelo ensino aos catechumenos e até dos mesmos padres. Instituiu o curso obrigatório da lingua brasilica, pela artinha que Anchieta compuzera: "Nesta lição, diz a Carta XXXVIII, de João de Mello, nem reitor, nem pregador, nem outra pessoa é isenta. Vai a cousa tão deveras que ha quem diga que dentro de um anno se obriga desoccupado, falar a lingua; nem eu com ser dos mais inhabeis perco a esperança de sabel-o." Na carta XXXIX, de Ruy Pereira, diz-se delle: "ordenou que houvesse cada dia uma hora de lição da lingua brasilica que cá chamamos grego, e elle é o mestre della pola saber entender e explicar suas regras melhor que todos, posto que sejam mui boas linguas." Concertou com o Bispo a vinda de toda a escravaria, á tarde, ao collegio, para ensino. Ensinava elle mesmo as cousas da Pé, diz o Padre Antônio Pires (Carta XL), na lingua dos escravos, assim como em portuguez ás mulheres dos colonos: "elle é tão soffrego nisto, que assi em casa como nas aldeias não consente a ninguém ensinar". E adiante: "Não deixa a ninguém fazer nada; parece incansável; os que o conhecem pasmam, porque prega duas horas aos Brancos e logo no mesmo dia prega ás mulheres e no mesmo á escravaria e gasta, nisto muito tempo que lhe não lembra comer e muitas vezes rezar o terço lá muito de noite: finalmente a todos nos envergonha." Emprehendeu uma entrada até o rio S. Erancisco, mas teve de tornar pelos muitos assaltos dos índios. Foi nomeado provincial, mas não quiz assumir o posto por nao succeder a Nobrega. Os índios gostavam delle, diz o Padre Blasquez (Carta XLV) • partindo de uma aldeia para outra, ficavam tão saudosos, que vinham á casa, e diziam: " J á se foi? Já agora tudo está calado. Quando estava aqui tudo estava alegre." Quando se annunciava a uma aldeia, era festa Sahiam " a recebê-lo em caminho eom o alvoroço e alegria costumada, e pelo caminho iam cantando na sua lingua: "Vamos receber o Padre Luis da Grã, que por nossa causa (era então tempo de inverno) não receia chuvas, nem charcos, nem maus caminhos. Eolgae todos com a sua vinda, pois nos traz a vida bôa." (Id., i d . ) .
[1] Estas palavras: "ando buscando todolos meios que posso pera remediar tão santa fome como esta gente tem do pão espiritual", sao a conclusão do apostolado do Padre Luis da Grã, que, pelo saber, diligencia, humildade, foi digno de se hombrear com os maiores, Nobrega, Anchieta, Nunes.
[2] Não é de hoje, no Brasil, a crise de vocação religiosa.

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