“A dispersão das fontes do ES ou e ele relativas tem dificultado o processo”: entrevista com a historiadora portuguesa Maria José dos Santos Cunha

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“A dispersão das fontes do ES ou e ele relativas tem dificultado o processo”: entrevista com a historiadora portuguesa Maria José dos Santos Cunha

 

spiritosancto-miniatura-entrevistaHoje trazemos uma entrevista especial com a historiadora portuguesa Maria José dos Santos Cunha. Doutora pela Universidade de Évora, em Portugal, ela escreveu sua tese sobre a presença dos jesuítas na Capitania do Espírito Santo. Interessada na história de nosso estado, Maria José já deu uma entrevista para o site Espírito Santo Notícias, falando sobre a  fundação da Aldeia de Reritiba (hoje Anchieta) e também publicou artigos em revistas acadêmicas capixabas. Seus artigos e sua tese de doutorado estão disponíveis no aqui, no Spirito Sancto.

Na rápida conversa com a historiadora, percebemos que a História do Espírito Santo pode e deve ser vista como uma alternativa para o historiador que não quer se render aos estudos sobre regiões pesquisadas à exaustão, como Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Bahia e Pernambuco. Ela deixa claro também, entretanto, que há dificuldades em reunir documentação sobre o estado, o que pode fazer com que o historiador seja obrigado a fazer buscas demoradas e caras para juntar o conjunto documental necessário para fazer um trabalho de qualidade.

Abaixo, leia nossa entrevista na íntegra:

 

Spirito Sancto: Primeiramente, Maria, você poderia se apresentar aos nossos leitores? Gostaria de saber um pouco sobre você e sua carreira acadêmica.

Maria José dos Santos Cunha: Licenciada em Ciências Históricas pela Universidade Livre de Lisboa, mestre em Estudos Lusófonos pela Universidade de Évora e com doutorado, pela mesma universidade. Gosto especialmente do período histórico da Idade Moderna, nas áreas cultural, social, política e da paleografia.

 

SS: Conheci, recentemente, sua tese de doutorado defendida na Universidade de Évora. Parabéns pelo trabalho. Você poderia falar um pouco sobre a tese? E sua dissertação de mestrado?

Maria José: Inicialmente interessei-me pelos estudos em torno dos cristãos-novos, sobretudo pelo criptojudaísmo, o que me levou a pesquisar sobre os cristãos-novos e as práticas culturais de resposta à perseguição dos tribunais da Inquisição bem como à posição de algumas figuras históricas que acabaram por contestar os estilos inquisitoriais. De entre estes destacou-se, com veemência, o padre António Vieira que participou numa querela teológica e jurídica em defesa dos cristãos-novos. Paralelamente ao vulto político e cultural de Vieira surgiu o Brasil e a sua crescente posição face a outras colónias portuguesas e à Europa. As cartas e as peças teatrais de José de Anchieta permitiram-me uma imagem do Brasil dissonante da visão tradicional da historiografia. Esse, um dos motivos para a escolha da capitania do ES para tema de estudo e do papel que os jesuítas aí desempenharam, sendo que, na tese, por questões óbvias de delimitação de assuntos acabei por me deter na relação dos jesuítas com os vários poderes que actuavam na capitania desde Lisboa às aldeias da região. Os avanços e os recuos em função dos interesses locais em articulação com os exteriores, incluindo os das capitanias limítrofes.

 

Para o estrangeiro, ainda hoje o ES permanece um ilustre desconhecido, situação que só pode ser revertida na medida em que os seus membros se empenhem por ultrapassar a barreira mental da metáfora do gigante Golias e de David contada no livro de Samuel.

 

SS: Gostaria de saber um pouco mais também sobre o seu interesse pela História do Espírito Santo colonial. Quando você começou a se interessar e o que fez você seguir esse caminho?

Maria José: Ao longo do processo de investigação apresentado anteriormente, pude perceber que o ES se integra dentro dos Estados e das capitanias que estão fora da tradição e do modismo brasileiros, centrados, sobretudo, em PE, BA, RJ, SP e MG. Como uma nação se constrói com todos e não apenas com algumas partes, é essencial abranger o todo, lembrando que quem estuda a história do Espírito Santo, estuda a história do Brasil. Para o estrangeiro, ainda hoje o ES permanece um ilustre desconhecido, situação que só pode ser revertida na medida em que os seus membros se empenhem por ultrapassar a barreira mental da metáfora do gigante Golias e de David contada no livro de Samuel.

 

SS: Nosso site tem como objetivo compartilhar e divulgar documentos históricos do Espírito Santo. Como você enxerga hoje o trabalho do historiador ou pesquisador interessado em estudar a história do estado? Quais são as principais dificuldades?

Maria José: Associado ao historiador e ao pesquisador, em geral, existe um trabalho de selecção, validação e classificação de documentos que fazem com que as fontes devam ser construídas e não apenas encontradas e esse trabalho exige tempo, metodologias e estratégias que precisam ser encaradas não apenas para os “novos papéis”, como também para aqueles que se pensa serem já do conhecimento de todos. A dispersão das fontes do ES ou e ele relativas tem dificultado o processo, uma vez que poucos podem dispor de meios materiais para os buscar. Neste sentido, a disponibilização oferecida pelo Projeto Resgate é uma mais-valia, contudo, parece-me, haver um deficit paleográfico no estado, o que provoca sérios constrangimentos de natureza temporal ao avanço da produção científica.

 

SS: Para concluir, que dicas você daria para historiadores, pesquisadores ou alunos de história que têm interesse em estudar a História do Espírito Santo? Deixe um recado para eles, e para nossos leitores em geral.

Maria José: Sem dúvida as universidades, as academias e as instituições do saber são motores de desenvolvimento e de estímulo sócio cultural. Por certo aquilo que possa aqui anotar outros o fizeram e sentiram anteriormente, assim, ocorre-me parafrasear o filósofo Agostinho da Silva que dizia mais ou menos morrer menos gente de câncer e doenças cardiovasculares do que as que morrem sem saber para o que vivem. Sem a recuperação das memórias como se pode construir a identidade de um povo?

 

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